Intervenção urbana na Arte Contemporânea: conceitos, técnicas e impacto social

Intervenção urbana na Arte Contemporânea: conceitos, técnicas e impacto social

Grafite ou pichação? Descubra as diferenças entre esses termos, as principais técnicas de intervenção urbana e como os conflitos no espaço urbano são cobrados no Enem e nos vestibulares

A intervenção urbana faz parte da Arte Contemporânea e considera a cidade um suporte artístico dinâmico. Ao ocuparem o espaço público, essas manifestações tensionam a relação entre o cidadão e a paisagem urbana.

Para o Enem e os vestibulares, o tema da arte urbana e suas intervenções é algo recorrente nas provas de Linguagens e Ciências Humanas. Isso ocorre porque essas manifestações levantam debates sobre patrimônio, direito à cidade e segregação socioespacial, exigindo do candidato uma visão crítica sobre o assunto.

Por isso, o Portal Estratégia Vestibulares preparou este artigo para você conhecer melhor o que é a intervenção urbana, suas principais técnicas e artistas. Confira!

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O que é intervenção urbana?

A intervenção urbana pode ser definida como qualquer manifestação artística que interage com o espaço público, modificando a paisagem visual ou a rotina de um local. Diferente de uma obra estática de museu, ela utiliza a cidade como suporte e parte integrante da mensagem, empregando objetos ou performances que subvertem a função original de um lugar. 

Assim, o objetivo central da intervenção urbana é romper o automatismo do cotidiano, provocando reflexões críticas e reações imediatas nos transeuntes.

Vandalismo ou arte?

A distinção entre vandalismo e intervenção artística é um tema presente em exames. Nessa discussão, há uma linha tênue e discutível sob a ótica do Direito, da Estética e da Sociologia, e a diferença reside na intenção e na recepção

Nesse sentido, enquanto o ordenamento jurídico foca na preservação do patrimônio e na ausência de autorização, a História da Arte diferencia essas práticas pela intencionalidade e técnica. Desse modo, o vandalismo é tipificado pela depreciação do bem, ao passo que a intervenção busca a ressignificação do espaço urbano

Contudo, para a Sociologia, ambas as práticas podem ser interpretadas como formas de ocupação do espaço por grupos marginalizados, e um sintoma de exclusão social e disputas pelo “direito à cidade”.

A efemeridade da intervenção urbana

Além disso, enquanto as obras museológicas são protegidas por protocolos de conservação, a arte urbana possui uma natureza intrinsecamente efêmera. Isso porque sua existência está condicionada à exposição direta a agentes externos, como intempéries, ações estatais de zeladoria e transformações urbanísticas. 

Essa transitoriedade é um elemento constituinte da obra, mimetizando o caráter transitório e fluido da própria experiência urbana.

Tipos de intervenção urbana

Nem toda intervenção urbana é “grafite”. Veja quais são as principais técnicas de arte urbana:

Graffiti (grafite)

O foco do graffiti está na imagem e no desenho elaborado, o qual utiliza técnicas complexas de sombreamento, perspectiva e cores. No Brasil, é amplamente aceito institucionalmente como “arte” e possui forte ligação com a cultura Hip-Hop.

Pichação (tag)

Diferente do grafite, a pichação é uma manifestação focada na estilização caligráfica e na assinatura. Ademais, no Brasil, a pichação é criminalizada por lei. Porém, a sociologia costuma analisá-la como um fenômeno de demarcação territorial e busca por visibilidade por grupos sociais marginalizados;

Muralismo

O muralismo consiste em pinturas de grandes dimensões, que ocupam fachadas inteiras de prédios. Diferente de outras vertentes da street art, esta modalidade integra-se ao planejamento institucional, dependendo de autorização legal e fomento público ou privado. 

Essa prática é frequentemente utilizada como ferramenta de revitalização urbana e “city marketing”, com o objetivo de valorizar a estética e o mercado imobiliário de áreas degradadas ou centrais.

Sticker Art (Adesivos)

Essa manifestação é baseada na aplicação rápida de adesivos em mobiliário urbano, como placas de sinalização e postes. Caracteriza-se pela repetição e pela agilidade na inserção, o que ocasiona a ocupação do espaço público por uma identidade visual ou ícone de forma serializada.

Lambe-Lambe (poster art)

Essa técnica utiliza cartazes de papel impressos ou pintados à mão, que são colados com cola caseira em superfícies urbanas, como paredes e postes. É uma técnica de baixo custo e alto impacto visual, muito utilizada para a comunicação de viés político ou poético. Logo, o lambe-lambe também possui como características a agilidade na ocupação do espaço urbano e reprodutibilidade

Outras formas de intervenção urbana

  • Projeção mapeada (video mapping): essa intervenção também faz parte da arte digital e utiliza projetores potentes para transformar superfícies irregulares, como fachadas de prédios em telas de vídeo dinâmicas. Tem sido uma intervenção presente em festivais de luzes, por exemplo;
  • Yarn Bombing: é a técnica de cobrir elementos urbanos, como postes, árvores e estátuas com tricô ou crochê colorido, a fim de humanizar a cidade e trazer uma estética de conforto e feminilidade ao espaço público; e
  • Estátuas vivas: a performance desses artistas consiste em permanecerem imóveis por longos períodos, utilizando movimentos lentos e estratégicos para interagir com os pedestres. Para criar o ilusionismo, utilizam figurinos e maquiagens elaborados que mimetizam a textura de uma estátua real.

Artistas de rua brasileiros

O Brasil é considerado uma das maiores potências mundiais em arte urbana e três nomes são particularmente relevantes para questões sobre o tema:

Os Gêmeos (Gustavo e Otávio Pandolfo)

Os irmãos paulistanos são famosos por seus personagens amarelos com roupas coloridas e padronagens detalhadas e frequentemente aparecem em questões do Enem e de outros vestibulares.

A estética de suas obras é inspirada no Hip-Hop dos anos 80, mas mistura-se com o lúdico e o folclore brasileiro. Suas obras também fazem críticas sociais e o cotidiano urbano.

Devido a sua relevância, eles levaram a arte de rua brasileira para os maiores museus do mundo, pintaram o avião oficial da Seleção Brasileira e um castelo histórico na Escócia. 

Eduardo Kobra

Kobra é conhecido pelo seu estilo de realismo fotográfico sobreposto por padrões geométricos e cores vibrantes, que criam um efeito de caleidoscópio. Seus temas focam no resgate histórico, por meio da retratação de figuras como Ayrton Senna e Anne Frank, em causas humanitárias e na espiritualidade.

Uma de suas obras mais icônicas é o mural Etnias, feito para as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. Essa produção entrou para o Guinness Book como o maior grafite do mundo na época. 

Crânio

Fábio Oliveira, conhecido como “Crânio”, criou uma marca registrada inconfundível: o índio azul. Ao colocar indígenas brasileiros em situações consideradas tipicamente ocidentais e capitalistas, como usando terno ou comendo fast food, o artista critica a perda da identidade cultural, o impacto das tecnologias e do consumismo desenfreado sobre as populações indígenas.

Banksy: anonimato e institucionalização da arte urbana

No cenário global de arte urbana, o artista britânico Banksy destacou-se pelo uso estratégico do anonimato como parte de sua identidade artística. Sua produção é fundamentada na técnica do estêncil (stencil), isto é, no uso de moldes vazados que permitem a execução ágil e replicável de imagens e textos, minimizando seu tempo de ação em espaços públicos não autorizados.

Suas intervenções possuem de ironia e crítica às estruturas sociais contemporâneas. Banksy também tensiona a hipocrisia do mercado de arte, evidenciando o paradoxo de obras que nascem na marginalidade urbana e terminam comercializadas por valores vultosos em leilões institucionais. 

Nessa lógica, em 2018, o artista acionou um mecanismo de autodestruição da sua obra Girl with Balloon instantes após esta ser vendida por um milhão de libras em um leilão. Ninguém esperava, mas havia um triturador escondido na moldura que foi disparado e cortou a tela em tiras em mais da metade. Devido a isso, a peça foi renomeada para Love is in the Bin e valorizou-se significativamente após o ocorrido.

Arte urbana no Enem e nos vestibulares

As provas dos vestibulares frequentemente abordam o tema da arte urbana como um tópico interdisciplinar, que transita entre as áreas de Linguagens, Artes, Sociologia e Geografia. Desse modo, é importante estar atento aos impactos sociais desse tema e como isso pode ser cobrado nos exames:

1. Arte urbana e o fenômeno da gentrificação

Áreas anteriormente degradadas que passam a abrigar grandes murais e tornam-se “galerias a céu aberto”, como o Beco do Batman (São Paulo) ou o distrito de Wynwood (Miami), experimentam uma intensa requalificação urbana

Se por um lado essa revitalização atrai investimentos e turismo, por outro, ela frequentemente desencadeia a gentrificação: um processo socioespacial no qual a valorização imobiliária e o aumento do custo de vida resultam no deslocamento compulsório de populações tradicionais de baixa renda, que são substituídas por grupos de maior poder aquisitivo.

2. Conflitos jurídicos e estéticos: o caso “Cidade Linda”

Em 2017, a gestão municipal de São Paulo implementou o programa “Cidade Linda”, que resultou no apagamento de extensas áreas de grafite na Avenida 23 de Maio. O episódio traz à tona o debate sobre as políticas culturais e o direito à cidade, levantando dois pontos fundamentais para o vestibular:

  • Poluição visual e patrimônio: o embate entre a visão de preservação da limpeza e ordem da cidade e o reconhecimento da arte urbana como patrimônio cultural imaterial; e
  • Gestão do espaço público: o debate sobre os limites da discricionariedade estatal no manejo de intervenções artísticas. Questiona-se até que ponto o poder público pode agir sobre manifestações consolidadas no imaginário coletivo sem ferir a liberdade de expressão e a identidade cultural urbana.

3. O “Pixo” paulista 

A pichação de São Paulo, conhecida como “pixo reto”, é analisada internacionalmente por sua singularidade tipográfica. Ela é considerada uma forma de “design vernacular”, ou seja,  expressão visual própria de um grupo ou cultura local.

O “pixo” é analisado sob a ótica da gramática visual e de sua função enquanto manifestação de resistência. A sociologia contemporânea interpreta a prática como uma resposta estética à verticalização e à exclusão socioeconômica, funcionando como uma “marcação de presença” em territórios historicamente restritos aos seus autores.

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