A ortografia é um dos pilares da norma-padrão da Língua Portuguesa. Muito além de um conjunto de regras, o padrão ortográfico é responsável por garantir a clareza e a unidade do idioma.
No contexto do Enem e dos vestibulares, a precisão ortográfica é indispensável, pois isto é avaliado tanto na redação quanto em questões objetivas de gramática.
Pensando nisso, o Portal do Estratégia Vestibulares preparou este artigo com as principais regras, as dúvidas mais comuns e os exemplos para você não errar mais. Confira!
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O que é ortografia?
A palavra “ortografia” tem origem no grego e significa “escrita correta” (orthos: correto, graphia: escrita). Nesse sentido, esta é a área da gramática que estuda e estabelece os padrões para a representação gráfica das palavras, a fim de garantir a clareza e a unidade do idioma. Logo, graças aos padrões ortográficos, um texto escrito em qualquer lugar do Brasil pode ser compreendido por todos.
Ademais, a importância da ortografia vai além da padronização social: ela possui uma relação direta com a morfossintaxe. Desse modo, a forma como escrevemos uma palavra pode determinar não apenas o seu sentido, mas também o papel que ela desempenha na frase. Um simples acento ou a troca de uma letra pode transformar um substantivo em verbo, por exemplo.
Ortografia regular e irregular
A ortografia pode ser regular ou irregular. Quando regular, significa que a escrita de uma palavra é regida por regras previsíveis. Quando irregular, a palavra tem uma escrita de origem etimológica definida pelo uso, sem estar relacionada a regras. Isso ocorre, por exemplo, no uso do J ou do G em várias palavras.
Fonema x letra
Para começar o estudo da ortografia, é importante entender que nem sempre um som (fonema) corresponde a uma única letra. Observe abaixo a distinção:
- Letra: é o sinal gráfico (o que escrevemos) que representa o som;
- Fonema: é a unidade sonora, ou seja, o som que ouvimos ao pronunciar as letras Cegalla (2008);
- Uma só letra pode representar diversos fonemas: eXame (som de /z/), Xícara (som de /ch/), próXimo (som de /s/);
- Por outro lado, um mesmo fonema pode ser representado por diferentes letras: caSa e coZinha; manJedoura e Gelatina.
- Há também letras que não representam fonemas em uma palavra, mas são mantidos em razão da origem etimológica ou como notações léxicas: caMpo (cãpo) e Hotel (otel);
- Quando um fonema é representado por um conjunto de duas letras, chama-se dígrafo: moCHila, miSSa, coLHer, teRRa.
O emprego das letras
Muitas palavras causam dúvidas com relação à escrita porque, como já foi abordado, letras diferentes podem resultar em um mesmo som. Por isso, estão listados abaixo os principais casos e regras de ortografia para evitar equívocos na hora de escrever, com base na gramática de Cegalla (2008).
Palavras com G e J
Escrevem-se com G:
- Terminações em -agem, -igem e -ugem: garagem, massagem, viagem, origem, vertigem, ferrugem. Exceção: pajem;
- Terminações em -ágio, -égio, ígio, -ógio e -úgio: contágio, estágio, prodígio, relógio, refúgio;
- Se a palavra primitiva é escrita com G, todas as palavras que derivarem dela manterão o G: massagem → massagista; vertigem → vertiginoso; faringe → faringite.
- Algumas palavras com G que não seguem uma regra específica: tigela, herege, monge, gesto, tangerina.
Escrevem-se com J:
- Palavras derivadas de outras terminadas em -ja: laranja (laranjeira), loja (lojista), granja (granjeiro), lisonja (lisonjeiro), cereja (cerejeira).
- Conjugação de verbos terminados em -jar ou -jear: arranjar → arranje, arranjemos; Viajar → viajei, viajem (atenção: viagem com G é o substantivo); despejar → despeje, despejemos;
- Palavras derivadas de outras que já possuem J: jeito (jeitoso, ajeitar, projeto), nojo (nojento);
- Palavras de origem ameríndia (tupi-guarani) ou africana: canjica, jenipapo, jerimum, jiboia, jiló, pajé, Moji;
- Outros vocábulos comuns para memorizar: berinjela, cafajeste, jegue, majestade, manjericão, ojeriza, sujeira, traje, ultraje, varejista.
S com som de Z
O S assume som de Z principalmente em sufixos que indicam qualidade ou origem:
- Adjetivos com sufixos -oso/-osa: teimoso, vaidosa;
- Adjetivos pátrios com sufixos -ês/-esa: português → portuguesa;
- Substantivos e adjetivos com sufixo -ês: marquês → marquesa;
- Verbos derivados de palavras que já têm S no radical: Análise → analisar.
Quando usar X e não CH
- Depois de ditongos (duas vogais juntas na mesma sílaba): caixa, peixe, frouxo.
- Exceção: recauchutar.
- Após “en-“: enxada, enxaguar, enxurrada.
- Cuidado: se a palavra base já tiver CH, o derivado mantém (cheio → encher)
- Palavras de origem indígena ou africana: xará, abacaxi, maxixe etc.
O fonema /S/
O fonema /s/ pode ser representado por Ç, S, SS, SC.
- SS: missão, sessão, processo, sucessivo, sessenta;
- SC / SÇ: nascer, cresço, disciplina, consciência;
- XC: excesso, exceção, excelente, excêntrico.
A letra H
O H não tem som próprio no início das palavras, existindo apenas por tradição histórica etimológica. Exemplos: hábito, homologar, hérnia, herói, hora.
A função principal da letra H está em formar dígrafos (ch, lh, nh) que alteram o som de outras letras. Exemplos: chave, ferrolho, carinho.
K,W e Y no alfabeto português
O alfabeto da língua portuguesa desde a reforma do novo Acordo Ortográfico, passou a ter 26 letras, pois foram adicionadas oficialmente as letras K, W e Y.
As letras K,W e Y são empregadas nas seguintes situações:
- Em abreviaturas e termos de símbolos científicos internacionais: quilômetro (Km), quilograma (Kg), quilowatt (Kw);
- Em palavras estrangeiras com escrita não aportuguesada: show, hobby, playground; e
- Em nomes próprios estrangeiros e seus derivados (não aportuguesados): Washington, Shakespeare, Darwin, shakespeariano, darwinismo.
Porém, atente-se: em palavras estrangeiras aportuguesadas o K foi substituído por “c” ou “qu”, o W por “u” ou “v” e o Y por “i”. Exemplos: Nova Iorque, Osvaldo, Ioga.
Acentuação gráfica: principais regras e classificações
Outro ponto importante na ortografia é a acentuação gráfica, pois ela marca a sonoridade correta da palavra ao destacar sua sílaba tônica. Além disso, um acento pode mudar completamente o sentido de uma palavra em uma frase, sendo um elemento crucial para evitar equívocos na compreensão de certos vocábulos.
Classificação de acordo com o acento tônico
Oxítonas
A sílaba tônica é a última. Acentuam-se quando terminam em:
- A(s): cajá, gambá, sofá;
- E(s): café, você, jacaré;
- O(s): vovó, paletó, jiló;
- Em/ens: parabéns, armazém, alguém; e
- Ditongos abertos (éi, ói, éu): réis, dói, véu.
Paroxítonas
A sílaba tônica é a penúltima. Acentuam-se quando terminam em:
- R: açúcar, cadáver, mártir, revólver;
- L: fácil, útil, amável, móvel;
- N: pólen, hífen, próton, elétron.
- X: tórax, látex, fênix, bípede;
- PS: bíceps, tríceps, fórceps;
- I / IS: táxi, lápis, grátis, tênis;
- U / US: vírus, bônus, vênus, ânus;
- UM / UNS: álbum/álbuns, fórum/fóruns, quórum;
- Ã / ÃS: Ímã, órfã, ímãs;
- ÃO / ÃOS/ Ã / ÃS: órgão, bênção, sótão, acórdão, órfãos, ímã/ímãs;
- GUAM / GUEM: enxáguam/enxáguem; e
- Ditongo crescente: água, refúgio, exercício, raciocínio.
Quando não acentuar paroxítonas?
Palavras paroxítonas com ditongos abertos (ei, oi) não são mais acentuadas. Exemplos: ideia, plateia, geleia, assembleia, joia, heroico, paranoico.
Também não são acentuadas paroxítonas terminadas em -ens. Exemplos: imagens, nuvens, jovens.
Proparoxítonas
A sílaba tônica é a antepenúltima e a regra é simples: todas proparoxítonas são acentuadas. Exemplos: lâmpada, médico, dúvida.
Hiato e acento diferencial
As regras de acentuação do hiato e do acento diferencial costumam também gerar dúvidas, pois sofreram modificações com o novo Acordo. Aqui estão os critérios para acentuar corretamente:
Hiatos
Acentuam-se o “i” e “u” tônicos quando:
- Estão sozinhos na sílaba (ou acompanhados apenas de S); e
- Não são seguidos por NH (ex.: ra-i-nha).
Exemplos:
- Sa-í-da: o “i” tônico está sozinho;
- Sa-ú-de: o “u” tônico está sozinho; e
- E-go-ís-ta: o “i” está com “s”.
Atenção: se o hiato vier depois de ditongo em paroxítonas, o acento é removido (ex: fei-u-ra).
Acento diferencial
O acento também é empregado para distinguir palavras homógrafas (que possuem a mesma grafia), mas que têm significados ou funções gramaticais diferentes. Veja os casos:
- Pode (verbo “poder” no presente) X pôde (no pretérito)
- Tem (verbo “ter” na 3ª pessoa do singular X têm (verbo “ter” na 3ª pessoa do plural);
- Por (preposição) X pôr (verbo); e
- Plural dos verbos ter, vir, manter (e derivados): tem (singular)/têm (plural), vem (singular)/vêm (plural), mantém (singular)/mantêm (plural).
Contudo, não há mais acento diferencial nos casos: pólo/polo, pêlo/pelo, pára/para, pêra/pera. Enquanto que o acento circunflexo para diferenciar o verbo “forma” do substantivo “fôrma” é facultativo (exemplo: A fôrma do sapato é pequena.)
Homônimos e parônimos
Homônimos
São palavras que possuem a mesma pronúncia e/ou a mesma grafia, mas com sentidos diferentes. Podem ser divididos em:
- Homônimos homógrafos: palavras com mesma grafia e pronúncias diferentes. Exemplo: sede (vontade de beber, pronúncia fechada /ê/) e sede (matriz ou local principal, pronúncia aberta /é/);
- Homônimos homófonos: palavras com a mesma pronúncia e com grafias diferentes. Exemplo: conserto (reparação de algo quebrado) e concerto (apresentação musical);
- Homônimos perfeitos: palavras com grafias e pronúncia iguais, mas com significados diferentes. Exemplo: banco (instituição financeira) e banco (assento para sentar).
Parônimos
Já os parônimos são palavras parecidas na grafia e/ou na pronúncia, porém com significados distintos. Exemplos:
- Absolver (perdoar) e absorver (reter/assimilar)
- Acender (atear fogo/alumiar) e ascender (elevar/subir)
- Descrição (ato de detalhar) e discrição (qualidade de discreto)
Dúvidas frequentes de ortografia
Entender o que são parônimos e homônimos vai te ajudar a evitar confusões comuns na escrita de diversas palavras. Veja a seguir os principais casos:
Mas ou mais? (Parônimos)
- Mas: é uma conjunção adversativa, ou seja, equivale a “porém” ou “contudo”.
- Exemplo: Estudei muito, mas (porém) não fui bem na prova.
- Mais: indica intensidade ou soma e é o oposto de “menos”.
- Exemplo: Quero ler mais livros este ano.
Dica: se conseguir substituir por “porém” sem comprometer o sentido da frase, o correto é “mas”.
Onde ou aonde? (Parônimos)
O segredo aqui é o movimento:
- Onde: indica lugar fixo, permanência.
- Exemplo: Onde você mora? / Onde estão as chaves?
- Aonde: indica movimento, destino. Geralmente acompanha verbos que indicam este movimento: “ir”, “chegar”, “levar”.
- Exemplo: Aonde você quer ir hoje à noite?/ Chegaram aonde desejavam.
Mal ou Mau? (Homônimos Homófonos)
- Mal: oposto de bem (advérbio ou substantivo).
- Exemplo: Ele se sentiu mal (bem). / O mal do mundo moderno é a pressa.
- Mau: oposto de bom (adjetivo).
- Exemplo: Ele é um mau (bom) exemplo. / O lobo mau.
Seção, sessão ou cessão? (Homônimos Homófonos)
- Seção (ou secção): significa uma parte de um todo, uma divisão ou um departamento. Para não confundir, pense em “seccionar” (cortar).
- Exemplo: “Procure o livro na seção de medicina.”
- Sessão: Refere-se a um intervalo de tempo em que algo acontece (uma reunião, um filme, uma consulta).
- Exemplo: “A sessão de cinema começa às 20h.”
- Cessão: advém do verbo ceder. É o ato de dar, transferir ou abrir mão de algo.
- Exemplo: “A prefeitura fez a cessão do terreno para a escola.”
Trás ou traz? (Homônimos Homófonos)
- Trás: advérbio de lugar. Indica posição posterior. Quase sempre vem acompanhado de uma preposição (por, para, de).
- Exemplo: “As crianças foram no banco de trás.”
- Traz: forma do verbo trazer (3ª pessoa do singular do presente do indicativo).
- Exemplo: “Ele sempre traz boas notícias.”
Comprimento ou cumprimento? (Parônimos)
- Comprimento: refere-se à extensão, tamanho ou medida de algo.
- Exemplo: “A pista tem 2 km de comprimento.”
- Cumprimento: pode se referir a uma saudação ou ao ato de cumprir uma tarefa. Assim, essa palavra também é um homônimo perfeito.
- Exemplos: “Ele me deu um cumprimento educado.” / “O cumprimento das normas é obrigatório.”
“Há” ou “a” ? (Homônimos Homófonos)
- Há (verbo haver): usado para tempo decorrido (passado) ou sentido de existir.
- Exemplo: Moro em São Paulo há dez anos. / Há muitos alunos na sala.
- A (preposição): usado para tempo futuro ou distância.
- Exemplo: O curso começa daqui a duas semanas. / A escola fica a 2 km daqui.
Dica: no contexto de temporalidade, se conseguir substituir por “faz” sem comprometer o sentido da frase, o correto é “há”.
A escrita dos “porquês”
É provável que em algum momento durante a produção de um texto você tenha apresentado as seguintes dúvidas sobre o uso dos porquês: devo escrever junto ou separado? Com ou sem acento? Na verdade, há quatro formas de escrever essa palavra. Confira as regras:
- Por que: usa-se no início de orações, em perguntas diretas ou indiretas, com sentido de “pelo qual”;
- Por quê: aplica-se no final de perguntas diretas ou isolado;
- Porque: usado em respostas e explicações como conjunção (equivale a “pois”, “visto que”, “uma vez que”); e
- Porquê: é um substantivo e vem acompanhado de artigo (“o porquê”).
Veja exemplos do uso dos “porquês” em orações:
- “Por que você não estudou matemática ontem?” (Oração interrogativa direta)
- “Quero saber por que ela não compareceu ao simulado.” (Oração interrogativa indireta)
- “Vocês estão rindo por quê?”
- “Não fui ao passeio porque estava doente.”
- “Ninguém explicou o porquê de tanta confusão durante a inscrição.”
Uso do hífen
O hífen (-) deve ser empregado quando:
- O segundo elemento da palavra inicia com a letra “h”.
- Exemplos: super-homem, anti-higiênico.
- O segundo termo da palavra inicia com uma vogal igual àquela que termina o primeiro elemento, evitando a repetição de vogais idênticas.
- Exemplos: micro–ondas, anti–inflamatório.
- O primeiro elemento termina por consoante igual à que inicia o segundo elemento.
- Exemplos: hiper-realista, hiper-resistente.
- Houver mesóclise ou ênclise (colocação pronominal), para ligar o pronome oblíquo átono ao verbo.
- Exemplos: contar-se-ão (mesóclise), casei-me (ênclise).
Quando não usar o hífen?
- Quando o prefixo termina por vogal e o segundo elemento começa com “r” ou “s”, a consoante deve ser dobrada. Exemplos: antirracismo, antirrábico, microssistema, ultrassom, antissocial, ecossistema.
- Quando o prefixo termina em vogal e o sufixo começa com uma vogal diferente. Exemplos: infraestrutura, antiaéreo, aeroespacial, agroindustrial, autoaprendizagem, contraindicação.
As regras para o uso do hífen podem assustar, mas no final a lógica é simples: “os iguais se separam e os diferentes se unem”.
Outros casos em que não se aplica hífen
- Em palavras compostas que perderam a noção de composição e agora são escritas aglutinadamente. Exemplos: mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, girassol, madressilva; e
- Em palavras compostas ligadas por preposição. Exemplos: mão de obra, lua de mel, dia a dia, passo a passo, pé de moleque, pão de ló, queda de braço.
Ortografia no Enem e nos vestibulares
A Competência 1 da redação do Enem
No Enem, a ortografia é avaliada na Competência 1. Desse modo, erros repetidos de grafia ou acentuação demonstram falta de domínio da norma culta, penalizam sua pontuação e podem impedir você de alcançar a vaga na universidade.
Diante disso, veja algumas dicas de como melhorar em ortografia e revisar erros na sua redação:
- Estude as principais palavras que causam dúvidas de ortografia;
- Pratique redação e analise seus erros, anotando-os para rever a regra ortográfica;
- Pratique uma leitura atenta e busque memorizar a grafia das palavras;
- Ficou com dúvida em alguma palavra na hora da redação do vestibular? Não arrisque. Tente substituir por algum sinônimo; e
- Releia o texto de trás para frente: isso ajuda você a focar mais na palavra e não no sentido do texto. Assim, você pode identificar palavras com grafia errada.
+ Veja também: Uso da Crase: regras, exceções e exemplos!
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