A transitividade verbal é um dos pilares da análise sintática e da construção de sentido nas orações. Nesse viés, dominar como o verbo se relaciona com os demais termos do período é essencial para para desenvolver um texto coerente e coeso na redação, para resolução de questões que exigem análise da sintaxe, bem como para compreensão e interpretação de textos.
Pensando nisso, o Portal do Estratégia Vestibulares preparou este artigo sobre transitividade verbal, para te ajudar a entender os tipos de transitividade e como se relacionam com a sintaxe do período simples. Confira!
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Período simples e o verbo como elemento central
Primeiro, é necessário relembrar que o período simples é um enunciado que apresenta sentido completo e contém apenas uma oração, ou seja, um único verbo ou locução verbal.
Nesse contexto, o verbo assume um papel central na estrutura sintática da oração, pois é ele quem determina os elementos sintáticos necessários para que a mensagem fique completa. Desse modo, alguns verbos possuem sentido pleno por si só, enquanto outros exigem complementos (objeto direto ou indireto) para que a ideia faça sentido.
Essa necessidade (ou não) de complementos, que varia de acordo com o verbo utilizado, é chamada de transitividade verbal, um conceito essencial para compreender a construção dos períodos.
O que é transitividade verbal?
Assim, a transitividade verbal é a relação entre o verbo transitivo e seu complemento, uma vez que o verbo transitivo necessita de um objeto para ter sua ideia completa estabelecida na oração.
Para ficar mais claro, tomemos por exemplo a frase: “Ana gosta”. Veja nessa oração o verbo “gosta” está sem contexto e sem sentido, pois não dá para saber do que (ou de quem) Ana gosta, é necessário um outro elemento sintático nesse período para complementar o verbo.
Porém, se for “Ana gosta de cães”, a estrutura sintática e o sentido do período ficam completos, pois é possível entender de qual elemento (objeto) Ana gosta.
Tipos de transitividade verbal
A Nova Gramática do Português Brasileiro propõe as seguintes classificações de transitividade segundo a predicação verbal: verbos transitivos, verbos intransitivos e verbos de ligação.
Verbos transitivos
Verbos transitivos exigem um complemento, pois não têm sentido completo sozinhos. Eles podem ser: transitivos diretos, indiretos ou bitransitivos.
Verbos transitivos diretos (VTD)
Verbos transitivos diretos exigem um complemento, mas não precisam de uma preposição para introduzi-los. Esse complemento recebe o nome de objeto direto (OD). Uma dica para saber se o verbo é transitivo e encontrar o objeto direto é perguntar “o quê?” ou “quem?” ao verbo.
Exemplos:
- “Ele comprou um livro.” → O que ele comprou? → “um livro” (OD);
- “João vendeu o carro.” → O que João vendeu? → “o carro” (OD);
- “Eles construíram uma casa.” → O que eles construíram? → “uma casa” (OD).
Verbos transitivos indiretos (VTI)
São verbos que pedem um complemento com o uso obrigatório de preposição (a, de, em, para, com, entre outras). Nesse caso, o complemento é chamado de objeto indireto (OI). Para identificar com mais facilidade o objeto indireto pode-se perguntar “de quê?”, “em quê?”, “para quem?” ao verbo.
Exemplos:
- “Eu preciso de ajuda.” → De que precisa? → “de ajuda” (OI);
- “Ela acredita em fantasmas.” → Em que acredita? → “em fantasmas” (OI);
- “Joana simpatizou com os novos colegas de trabalho.” → Simpatizou com o quê/quem? → “os novos colegas” (OI);
- “O cachorro obedece ao dono com facilidade.” → A quem obedece? → “ao dono” (OI).
Verbos transitivos diretos e indiretos (VTDI) ou bitransitivos
Os verbos bitransitivos exigem dois complementos: um objeto direto (OD) e um objeto indireto (OI).
Exemplos:
- “Ele entregou o presente (OD) à mãe (OI)”;
- “O professor explicou a matéria (OD) aos alunos (OI)”;
- “Enviei o convite (OD) para minha tia (OI)”;
- “O médico informou o diagnóstico (OD) ao paciente (OI)”.
Verbos intransitivos (VI)
São verbos que não exigem complemento verbal (objeto direto ou indireto), pois possuem sentido completo por si mesmos, sendo capazes de transmitir a informação essencial sobre o sujeito, se a oração finalizar neles. Assim, não faz sentido perguntar ao verbo intransitivo “o quê?” ou “quem?” recebeu a ação.
Mas isso não significa que uma oração com verbo intransitivo necessariamente deve acabar nesse verbo. É possível que os verbos sejam acompanhados de termos acessórios, como os adjuntos adverbiais (de lugar, tempo, modo), mas que não são complementos verbais – termos integrantes, essenciais para a oração.
Exemplos:
- “Os pássaros cantam”;
- “O cachorros latem”;
- “A criança chorou muito” (“muito” é adjunto adverbial de intensidade);
- “O bebê dormiu profundamente” (“profundamente” é o adjunto adverbial de modo).
Verbos de ligação (VL)
Os verbos de ligação não indicam uma ação em si, mas um estado ou característica do sujeito. Em outras palavras, a função deles é ligar o sujeito a uma característica (predicativo do sujeito).
Além disso, é importante ressaltar que eles não possuem complementos verbais, mas sim predicativo do sujeito.
Principais verbos de ligação: ser, estar, parecer, permanecer, continuar, andar (no sentido de estar), ficar, viver.
Exemplos:
- “Ele está feliz”;
- “Ela parece cansada”;
- “Ele é médico”;
- “O menino anda triste”;
- “Ela permaneceu quieta”.
Casos especiais de transitividade para o vestibular
Deve-se também ter cuidado com alguns verbos que apresentam variações de sentido conforme o contexto, o que afeta diretamente sua transitividade.
Nesse sentido, a transitividade verbal está intimamente ligada à regência, pois é ela (a regência) quem determina se o verbo exige complemento com ou sem preposição e qual é a preposição adequada. Observe, a seguir, exemplos relevantes de verbos com variação de transitividade:
Verbos que mudam de transitividade
Um mesmo verbo pode ter diferentes transitividades dependendo do contexto e do significado que esses possuem na oração. Veja os principais casos:
Assistir
- No sentido de “ajudar”, “prestar assistência”, é transitivo direto. Exemplo: “O médico assistiu o paciente”;
- No sentido de ver, presenciar, classifica-se como transitivo indireto. Exemplo: “Assistimos ao filme recomendado pelo professor”.
Aspirar
- Quando com sentido de “sorver” ou “inalar”, é transitivo direto. Exemplo: “A menina aspirou o perfume das flores”;
- Quando com sentido de “almejar” ou “pretender”, é transitivo indireto. Exemplo: “A menina aspirava a uma vaga na universidade.”
Agradar
- No sentido de “fazer carinho” ou “afagar”, classifica-se como transitivo direto. Exemplo: “A mãe agradou o bebê a noite inteira”;
- No sentido de “ser agradável” ou “satisfazer”, o verbo é transitivo indireto, regido pela preposição “a”. Exemplo: O filme agradou a todos os espectadores.
Implicar
- No sentido de “ter como consequência” ou “acarretar em algo”, é transitivo direto. Exemplo: “O atraso implicará prejuízos financeiros”;
- No sentido de “ter implicância” ou “embirrar”, classifica-se como transitivo indireto. Exemplo: “O homem implica com os colegas de trabalho.”
Chamar
- Quando com o sentido de “convocar” ou “solicitar” a presença ou a atenção de alguém, ele se classifica como transitivo direto. Exemplo: “A diretoria chamou os alunos envolvidos na situação”;
- Quando assume o sentido de “denominar”, pode ser transitivo direto ou indireto. Exemplo: “Chamaram o homem herói do povo” (VTD + predicativo do objeto), ou “Chamaram ao homem herói do povo” (VTI + predicativo do objeto).
Proceder
- Quando expressa a ideia de “ter fundamento” ou “fazer sentido”, o verbo é intransitivo. Exemplo: “As informações não procedem”;
- Quando expressa a ideia de “origem”, o verbo é transitivo indireto, regido pela preposição “de”. Exemplo: “A mulher procede de uma linhagem aristocrática”.
Visar
- Quando com o sentido de “mirar”, “pôr visto” ou “apontar”, classifica-se como transitivo direto; Exemplo: “O atirador visou o alvo”;
- Quando com o sentido de “objetivar”, “almejar” ou “pretender”, é transitivo indireto. Exemplo: “Os estudantes visam à aprovação no vestibular”.
Logo, quando o sentido do verbo muda, sua regência também pode se alterar. Por isso, é necessário ter domínio da transitividade e da regência dos verbos, especialmente para a redação, pois o uso inadequado das preposições pode comprometer a correção gramatical e a clareza do texto.
Vozes verbais e transitividade
A transitividade verbal também se relaciona com as vozes verbais, pois a estrutura sintática se reorganiza quando mudamos a voz do verbo.
Nesse viés, a voz passiva só pode ser formada com verbos transitivos diretos ou diretos e indiretos, porque é necessário haver um objeto direto que possa ser transformado em sujeito paciente da oração passiva.
Exemplo:
- Voz ativa: “O aluno leu o livro.” (verbo transitivo direto);
- Voz passiva: “O livro foi lido pelo aluno.” (o objeto direto “o livro” tornou-se sujeito paciente)
Ademais, na voz reflexiva, o sujeito que realiza a ação também sofre essa mesma ação. Para expressar isso, são usados os pronomes reflexivos (“se”, “me”, “nos”, entre outros).
Exemplo: “Ela se machucou com a tesoura.”
- Verbo: machucou;
- Sujeito: Ela (quem faz e sofre a ação);
- Pronome reflexivo: se (objeto direto).
O verbo machucar é transitivo direto, pois quem machuca, machuca algo. Nesse caso, ela machucou a si mesma.
Transitividade verbal no Enem e vestibulares
Transitividade na redação
Erros de transitividade verbal na redação do Enem, por exemplo, comprometem a nota na Competência 1 (domínio da norma-padrão). Isso pode te fazer perder pontos preciosos para sua aprovação. Além disso, é necessário saber aplicar a transitividade verbal para garantir a clareza do texto e, especialmente, da argumentação.
Para elucidar, observe um erro comum de transitividade em redação:
- “A negligência estatal acarretou no aumento da criminalidade.”
O verbo acarretar, no sentido de “provocar” ou “causar”, é transitivo direto, ou seja, não exige preposição. Notou a importância da transitividade?
Dicas de estudo
- Analise a função de cada palavra na oração: identifique o verbo e pergunte “quem?”, para definir o sujeito, e “o que/de quê/a quem?” para identificar os complementos;
- Liste os verbos de regência mais comuns e suas preposições; e
- Pratique com questões sobre o assunto.
+ Veja também: Novo Acordo Ortográfico: principais mudanças com exemplos
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