Arte africana: conceito, história e características

Arte africana: conceito, história e características

ntenda melhor as características estéticas da arte africana, sua influência direta no Cubismo e as disputas geopolíticas por acervos tradicionais

Longe de ser uma produção homogênea, o acervo estético do continente africano revolucionou a história da arte no mundo, servindo de base para o nascimento das vanguardas modernas e, hoje, ocupa o foco de profundos debates geopolíticos.

Para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e os principais vestibulares, compreender quão abrangente é a arte africana, suas características estéticas e seu impacto no surgimento das vanguardas europeias é essencial para a resolução de questões de Ciências Humanas, além de configurar um sólido repertório sociopolítico para a Redação. 

Pensando nisso, o Portal Estratégia Vestibulares preparou este artigo completo para você dominar os principais aspectos da arte africana e sua evolução ao longo da história. Confira!

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O que é arte africana?

A arte africana compreende o conjunto de manifestações estéticas, rituais e utilitárias produzidas pelas diversas civilizações do continente africano ao longo da história. 

Nesse sentido, para entender a arte africana de forma correta e afastada de visões eurocêntricas, é preciso primeiro entender dois pilares centrais:

  • A África não é um país: o termo “arte africana” é usado apenas para se referir de maneira mais simplificada e pedagógica a um amplo espectro cultural produzido no continente africano. Isso porque a África é um continente composto por dezenas de nações e milhares de etnias distintas (como os Iorubás, Dogons, Ashantis e Zulus), e cada uma delas desenvolveu suas próprias tradições, linguagens visuais e filosofias; e
  • A integração entre a arte e o útil: diferente do conceito europeu de “arte pela arte”, na tradição africana clássica, a arte não foi feita apenas para ser contemplada passivamente em uma galeria. Por isso, objetos como máscaras, esculturas, tecidos e bancos são, ao mesmo tempo, utensílios práticos do cotidiano e canais de conexão com a ancestralidade e suas práticas religiosas.

A evolução da arte africana: materiais e tecnologias

A história da arte africana tradicional constitui uma trajetória milenar, iniciada ainda no período pré-histórico, antes mesmo de registros da invenção da escrita no continente.

Nesse contexto, a cultura Nok (1500 a.C – 200 d.C), é uma das mais antigas evidências de produção de esculturas da África Subsaariana. Seus integrantes dominavam a queima de terracota (barro cozido), criando figuras humanas estilizadas com olhos amendoados e cabeças grandes, uma característica conceitual que atravessaria séculos na história do continente.

Avançando na cronologia, o Império de Axum (séculos I a VIII), localizado na região da atual Etiópia, destacou-se por sua imponente arquitetura monumental. A civilização destacou-se pela escultura de monumentais obeliscos de pedra única, conhecidos como estelas, que funcionavam tanto como marcos funerários quanto como símbolos do poder político e sagrado da realeza.

Por volta do século IX, ainda na faixa subsaariana, o povo Igbo Ukwu apresentou um notável refinamento metalúrgico. Essa cultura realizou trabalhos complexos em ligas metálicas, predominantemente o bronze, além de demonstrar alta perícia no entalhe do marfim, na escultura em terracota e na lapidação de pedras preciosas, consolidando a tradição de objetos de prestígio dinástico.

Contudo, o Reino de Benin, situado no território da atual Nigéria, é considerado o apogeu técnico e artístico da fundição, o qual ganhou maior destaque a partir do século XVI. Os metalúrgicos reais de Benin aperfeiçoaram a técnica da cera perdida para confeccionar placas decorativas e as célebres cabeças dinásticas de reis (Obás) em bronze. O nível de detalhamento, simetria e acabamento dessas peças chamou a atenção por apresentar tamanha excelência para a época.

Paralelamente ao avanço das técnicas no uso dos metais, o continente africano consolidou uma sólida tradição baseada no uso recorrente da madeira. Por ser um suporte orgânico e integrado às dinâmicas rituais e cotidianas, o entalhe em um único bloco de madeira  (“técnica monóxila”) tornou-se a principal forma de confecção de máscaras e estatuetas rituais. Além disso, a estilização das máscaras servia como instrumento de comunicação com a ancestralidade. 

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Máscara real Kuba Ngady aMwaash, decorada com padrões geométricos pintados. República Democrática do Congo, 1890-1910  D.c.  Fonte: Wikimedia Commons / Domínio Público.

Arte têxtil africana 

Partindo para o campo têxtil, os tecidos tradicionais da África Ocidental não cumprem mera função de vestuário. Exemplo disso é o tecido Kente (dos povos Ashanti), feito de seda e algodão, possui cores vibrantes e tramas geométricas entrelaçadas manualmente. Cada cor possui uma simbologia e seu uso sinaliza status social e político. 

Já os tecidos estampados com símbolos Adinkra (conjunto de símbolos pertencente ao povo Ashanti) funcionam como verdadeiros meios de comunicação visual: cada ideograma geométrico representa um conceito filosófico, um ditado popular ou um valor moral. A escolha da estampa varia com a ocasião e o que deseja comunicar, como o símbolo Akoma, que representa o coração, podendo significar o amor e a paciência.

Outras expressões notáveis da arte têxtil africana que também utilizam cores vibrantes e padrões geométricos para além da função indumentária são a Capulana e o Bogolan. Típica de Moçambique, a Capulana carrega um forte simbolismo de respeito e afirmação da identidade cultural. 

Já o Bogolan, originário do Mali, destaca-se por seu processo de produção artesanal que emprega tintas vegetais naturais e o barro. Esse tecido é amplamente reconhecido por seus desenhos que funcionam como histórias visuais codificadas por meio de símbolos tradicionais.

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Exemplos de tecidos Kente tradicionais da África Ocidental. Fonte: Wikimedia Commons / Domínio Público.

Arte africana x arte europeia

Ao analisar uma escultura ou máscara africana tradicional é possível identificar a “estética do essencial”, que opera de maneira oposta aos padrões da Antiguidade Clássica Greco-Romana ou do Renascimento Europeu.

Em outras palavras, significa que o artista africano tradicional rejeita a reprodução  ou imitação exata da anatomia humana. Isso se justifica pelo fato de o objetivo não ser retratar a aparência física externa, mas sim traduzir a essência espiritual e conceitual de uma divindade, ancestral ou autoridade. Para isso, utiliza-se a abstração e a geometrização:

  • Desproporcionalidade anatômica: é comum observar figuras com cabeças desproporcionalmente grandes em relação ao corpo, pois a cabeça é concebida como a sede da sabedoria, do controle espiritual e da força vital; e 
  • Simetria e estilização: olhos amendoados, narizes lineares e formas puras conferem equilíbrio e imponência às peças, transmitindo valores de estabilidade, respeito e serenidade.

A arte africana nas vanguardas europeias

No início do século XX, o cenário artístico europeu enfrentava desafios: com a popularização da fotografia, vários artistas ocidentais passaram a valorizar menos o academicismo e a obrigação de reproduzir o realismo anatômico. Assim, eles buscavam uma nova forma de expressão que se traduziu na criação das vanguardas artísticas europeias.

Foi nesse cenário que artistas radicados em Paris, como Pablo Picasso, Henri Matisse e Amedeo Modigliani, entraram em contato com as máscaras e estátuas rituais africanas que chegavam à Europa Ocidental, enviadas pelos administradores coloniais das áreas ocupadas pelo Imperialismo durante o século XIX.

Os pintores europeus perceberam que os artistas africanos, há séculos, já dominavam a capacidade de fragmentar a anatomia humana em blocos conceituais e geométricos. Esse contato direto com a cultura africana culminou no surgimento do Cubismo e, em 1907, Pablo Picasso pintou a obra que inaugurou as vanguardas modernas: Les Demoiselles d’Avignon (As Senhoras de Avignon). Nessa pintura, o rosto das duas figuras localizadas à direita da tela foi substituído por estilizações inspiradas nas máscaras africanas. 

Picasso consolidou-se como um dos expoentes ocidentais que mais absorveram a liberdade criativa da tradição africana, incorporando principalmente a geometrização e as máscaras tribais. 

Repatriação da arte africana e diplomacia cultural

O processo de expansão colonial europeia, durante o século XIX, resultou no deslocamento e na transferência massiva do patrimônio material africano para acervos ocidentais, o que resultou na influência em movimentos de vanguarda europeia, como já citado. 

Entretanto, essa discussão não se encerrou no passado. Na contemporaneidade, esse percurso histórico é o centro de complexas negociações diplomáticas internacionais, motivadas por demandas de repatriação de acervos que visam a reconstituição das identidades culturais e das memórias coletivas em seus territórios de origem.

Nesse contexto, um episódio marcado pela violência foi o saque britânico à cidade de Benin, em 1897. Na ocasião, milhares de artefatos rituais e históricos, conhecidos como “Bronzes de Benin”, foram retirados de seus territórios de origem por meio de saques de guerra e expedições punitivas. 

Hoje, estimativas apontam que mais de 90% do patrimônio cultural material da África subsaariana encontra-se fora do continente, abrigado em grandes instituições europeias como o British Museum (Londres) e o Musée du Quai Branly (Paris).

Os governos de nações como a Nigéria, o Benim, o Senegal e a República Democrática do Congo exigem a devolução definitiva dessas peças, argumentando que a restituição de seus objetos sagrados e históricos é um direito de soberania cultural indispensável para a reconstrução da memória coletiva e da identidade de suas populações. 

Vale lembrar, que este debate conecta-se diretamente ao conceito de decolonialidade e o papel social dos museus modernos, temas frequentemente abordados nos vestibulares e possíveis propostas de redação.

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Cabeça de bronze do Reino de Benin (atual Nigéria). Museu do Louvre, Paris, França. Fonte: Wikimedia Commons / Domínio Público.

Arte afro-brasileira 

A cultura afro-brasileira foi consolidada a partir do tráfico transatlântico forçado durante o período colonial. Isso tornou o Brasil o país com a maior população de origem africana fora de seu continente natal. 

Contudo, essa herança não se deu de forma homogênea, organizando-se a partir da pluralidade de dois grandes grupos etnolinguísticos: os Bantos (provenientes de Angola, Congo e Moçambique) e os Sudaneses (oriundos da África Ocidental), os quais precisaram realizar constantes reatribuições de sentido e adaptações para assegurar a sobrevivência de suas tradições durante o período colonial. 

Geograficamente, as manifestações culturais desses povos concentraram-se inicialmente no Nordeste devido ao ciclo da cana-de-açúcar, expandindo-se para o Sudeste e Sul, com as migrações econômicas posteriores. 

Historicamente criminalizados, esses costumes rituais e artísticos só deixaram de ser perseguidos por lei na década de 1930, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, alcançando a consolidação de sua salvaguarda institucional com a promulgação da Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas redes de ensino. 

Hoje, essa herança atua como pilar indissociável da memória coletiva e da identidade nacional, moldando de forma profunda a língua, as artes visuais, a culinária, as religiões e o imaginário sociocultural do Brasil.

+ Veja também: Danças africanas: diversidade, cultura e matriz afro-brasileira

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