Folclore: conceito, origem e evolução histórica

Folclore: conceito, origem e evolução histórica

Entenda melhor as manifestações folclóricas, a evolução histórica de seu conceito e o impacto da Indústria Cultural moderna

O folclore constitui o patrimônio imaterial de uma nação, reunindo as manifestações culturais que fundamentam a memória coletiva, a cosmovisão e a identidade de um grupo social. 

Para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e os principais vestibulares, compreender a evolução histórica desse conceito, suas origens e o seu caráter mutável frente à globalização é essencial para a resolução de questões de Ciências Humanas, além de ser um sólido repertório sociocultural para a Redação.

Pensando nisso, o Portal Estratégia Vestibulares preparou este artigo completo para você dominar as características do folclore, seus marcos regulatórios de salvaguarda no Brasil e as principais discussões contemporâneas que conectam a tradição popular à Indústria Cultural moderna. Confira!

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O que é folclore?

O folclore é o conjunto de manifestações da cultura popular de massa tradicional, geradas espontaneamente e transmitidas de forma oral e geracional. Trata-se de uma produção anônima e coletiva que atua como patrimônio imaterial, representando a identidade social, a memória e a cosmovisão de uma comunidade.

Ele engloba:

  • Narrativas: mitos, lendas e contos;
  • Costumes: festas populares, encenações, brincadeiras, culinária e medicina tradicional; e
  • Linguagem: provérbios, parlendas, adivinhas, dialetos regionais e cantigas.

Origem e evolução do conceito de folclore

Para além das lendas e mitos populares, o termo folclore surgiu da união de palavras de origem inglesa folk (povo) e lore (saber), significando literalmente “saber do povo” (folk-lore), cunhada em 1846 pelo arqueólogo britânico William John Thoms. Originalmente, o conceito carregava um viés elitista, associando o “saber popular” estritamente às classes marginalizadas, em oposição à chamada cultura erudita das elites.

Com o avanço dos estudos antropológicos e a fundação da Folklore Society em Londres (1878), o folclore foi expandindo para além dos mitos e integrou práticas como a culinária e o artesanato à identidade cultural.

A institucionalização do folclore no Brasil

Influenciados pelo cenário internacional, intelectuais brasileiros passaram a sistematizar o estudo das manifestações locais no século XX, resultando em marcos importantes:

  • 1947 – Comissão Nacional de Folclore: criada para coordenar e incentivar as pesquisas etnográficas no país;
  • 1951 – I Congresso Brasileiro de Folclore: evento que oficializou o dia 22 de agosto como o Dia do Folclore no Brasil (em homenagem à data de criação do termo por Thoms) e promulgou a Carta do Folclore Brasileiro. Esse documento fixou as primeiras diretrizes nacionais para a pesquisa, educação e preservação do patrimônio popular; e
  • 1995 – Releitura da Carta do Folclore: durante o VIII Congresso Brasileiro, o documento foi atualizado para acompanhar a evolução das Ciências Humanas, consolidando o folclore não como um conjunto de tradições estáticas do passado, mas como um patrimônio imaterial dinâmico e em constante ressignificação pela sociedade.

As raízes do folclore brasileiro

As manifestações folclóricas produzidas no Brasil são o resultado do encontro histórico e complexo de três matrizes culturais fundadoras: a indígena, a africana e a europeia (predominantemente portuguesa). 

A cultura indígena contribuiu fundamentalmente com o conhecimento botânico, a medicina tradicional por chás e ervas e uma íntima relação com o meio ambiente, expressa na cosmologia de mitos como o Curupira e a Caipora, que atuam como protetores das florestas. 

Por sua vez, a vertente africana enriqueceu o patrimônio nacional ao introduzir ritmos percussivos, técnicas agrícolas, o sincretismo religioso e elementos culinários marcantes, como o uso do azeite de dendê, além da literatura oral, por meio de contos de resistência cujos personagens astutos superam seus opressores. 

Por fim, a herança europeia consolidou-se por meio da introdução da língua portuguesa e da religião Católica, na qual reside a origem das festas em honra aos santos e padroeiros. A cultura portuguesa também forneceu a base métrica para a literatura de cordel e adaptou ao território brasileiro figuras do imaginário europeu, como o Lobisomem e a Mula sem Cabeça

Características do folclore

  • Anonimato: as manifestações folclóricas não pertencem a um “autor” único ou intelectualizado; elas são de propriedade coletiva;
  • Transmissão oral: o conhecimento é repassado de boca em boca, de geração em geração, sofrendo modificações e adaptações ao longo do tempo sem perder sua essência comunitária;
  • Regionalismo: as manifestações tradicionais são adaptadas às particularidades geográficas, históricas e sociais de cada localidade, demonstrando que o folclore não é homogêneo, mas sim um mosaico cultural que varia em suas expressões (como sotaques, culinária e lendas) de acordo com a região do país; e
  • Dinamismo (e mutabilidade): o folclore sofre adaptações e modificações à medida que a sociedade muda. É essa característica que explica, por exemplo, o surgimento das lendas urbanas nas grandes metrópoles contemporâneas.

Categorias do folclore

O folclore se manifesta em múltiplas dimensões do cotidiano, dividindo-se em algumas categorias principais:

Narrativas (mitos e lendas)

Os mitos e as lendas são histórias que buscam explicar fenômenos da natureza, a origem de algo ou moldar comportamentos sociais. Nesse sentido, a história da Vitória-Régia é um exemplo clássico de uma narrativa folclórica que tenta explicar, por meio do fantástico, a origem de um elemento da natureza (neste caso, a famosa planta aquática da Amazônia). Outros exemplos: Saci-Pererê, Iara, Boitatá e Mula Sem Cabeça.

Expressões dramáticas (danças e festas populares)

Essas manifestações comumente misturam o sagrado e o profano, a fé e o entretenimento, mobilizando comunidades inteiras. A maioria das festas têm origem religiosa ou tinham origem pagã e incorporaram aspectos religiosos ocidentais. Exemplos: Festas Juninas, Bumba-meu-boi, Congada e Folia de Reis.

Adicionalmente, as danças constituem expressões coreográficas tradicionais e coletivas que fundem elementos das matrizes africana, europeia e indígena. Integrando música e figurinos característicos, essas manifestações têm como objetivos preservar a memória histórica e estreitar os laços de coesão social e identidade comunitária. Exemplos: Frevo, Maracatu e Samba de Roda.

Literatura oral

São as manifestações textuais rítmicas e rimadas que sintetizam a cosmovisão popular. Inclui a literatura de cordel, as parlendas infantis (“Hoje é domingo, pede cachimbo”), os provérbios, as adivinhas (“O que é, o que é?”), os ditados populares (“Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”) e os trava-línguas (“O rato roeu a roupa do rei de Roma.”).

Saberes e fazeres tradicionais

São as práticas de subsistência e conhecimento empírico, que utilizam matérias-primas locais e técnicas ancestrais. Engloba a medicina caseira (rezas e fitoterapia), o artesanato regional (como a arte figurativa do Vale do Jequitinhonha e as rendas de bilro no Litoral do Nordeste) e a culinária típica (como a pamonha e o acarajé).

Músicas folclóricas

As músicas folclóricas são composições de autoria coletiva e transmissão oral, caracterizadas por melodias simples. Elas também desempenham funções sociais e pedagógicas relevantes no cotidiano, especialmente nas escolas. 

Essa tradição musical se manifesta principalmente por meio de práticas lúdicas de socialização infantil, como as cantigas de roda, e de demonstrações de afeto no ambiente doméstico, como as cantigas de ninar

Brincadeiras e jogos

Há ainda as brincadeiras folclóricas e os jogos populares, que são atividades lúdicas espontâneas, transmitidas oralmente de geração em geração. Elas refletem a identidade e o cotidiano de cada comunidade e são livres de regras rígidas. Essas dinâmicas também estimulam a socialização e preservam a memória coletiva infantil através de práticas tradicionais, como a amarelinha, o cabo de guerra e a queimada

O folclore como patrimônio imaterial

O Brasil protege legalmente o folclore através do Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial, coordenado pelo IPHAN sob as diretrizes do Decreto nº 3.551/2000.

Desse modo, as manifestações folclóricas, por possuírem um caráter imaterial e dinâmico, são registradas (e não tombadas), a fim de garantir sua salvaguarda. Isso significa que o Estado precisa assegurar as condições sociais e econômicas para que os detentores desse saber, os mestres e a comunidade, continuem praticando e transmitindo o conhecimento às novas gerações.

O folclore na contemporaneidade e os impactos da globalização

O folclore nacional na contemporaneidade

Como já foi abordado, as práticas folclóricas não são fixas, mas se modificam constantemente, como uma resposta às transformações culturais e sociais. 

Nos centros urbanos, por exemplo, o folclore pode se manifestar por meio de lendas urbanas (como a Loira do Banheiro) em vez do Saci-Pererê, uma vez que a narrativa reflete melhor os medos e as dinâmicas das metrópoles modernas. 

Desse modo, essa transição do cenário rural para o ambiente urbano evidencia o caráter ajustável e dinâmico da cultura popular. Longe de representar o desaparecimento do folclore, o surgimento dessas novas narrativas confirma que a criatividade popular permanece ativa, reconfigurando-se à realidade vivenciada pela coletividade. 

Os impactos da globalização no folclore nacional

No entanto, no cenário contemporâneo, essa capacidade de adaptação local pode encontrar desafios relacionados à massificação cultural promovida pela globalização. Afinal, elementos estrangeiros, como personagens do Halloween americano e as releituras das mitologias grega e nórdica povoam a bagagem cultural imediata das gerações mais jovens. 

Logo, essas referências estrangeiras, impulsionadas pela Indústria Cultural tornaram-se frequentemente mais familiares no cotidiano brasileiro do que figuras como o Boitatá ou a Mula-sem-Cabeça. Diante dessa assimetria, abre-se um debate sociológico que pode ser abordado nos vestibulares:

  • Risco de homogeneização: alguns críticos alertam que o consumo predominante de produtos globais pode provocar um apagamento identitário, desvalorizando as culturas locais e enfraquecendo o sentimento de coesão nacional; e 
  • Potencial de hibridismo: por outro lado, o folclore pode usar os canais modernos para se renovar. Historicamente, Monteiro Lobato fez isso com o Sítio do Picapau Amarelo no circuito editorial e, recentemente, a série Cidade Invisível recontextualizou figuras do folclore nacional em uma narrativa policial global via streaming.

O debate central, portanto, não gira em torno do desaparecimento do folclore, mas sim de como ele se reposiciona e compete na era digital, questionando em que medida as tradições locais ainda conseguem cumprir seu papel de representação identitária.

+ Veja também: Pré-modernismo: o que foi, contexto histórico, características e principais autores

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