Romantismo na arte: contexto histórico, características e obras

Romantismo na arte: contexto histórico, características e obras

Baseado no subjetivismo e na exaltação dos sentimentos, o Romantismo redefiniu a literatura e as artes plásticas no século XIX, rompendo com o racionalismo para consagrar a liberdade criativa e os ideais da burguesia em ascensão

Longe de ser apenas um movimento sobre “histórias de amor”, o Romantismo fez parte de uma revolução cultural, estética e política que transformou o modo como o Ocidente entendia o indivíduo e a sociedade no século XIX.

Para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e os principais vestibulares, compreender o que foi o Romantismo é essencial para resolver questões de Literatura e Artes que abordam a estética Romântica e como ela se relaciona com o seu contexto histórico.

Pensando nisso, o Portal Estratégia Vestibulares preparou este artigo completo para você entender o que foi o Romantismo, suas influências e as características fundamentais. Confira!

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O que foi o Romantismo?

O Romantismo foi um movimento artístico, político e filosófico que efervesceu na Europa, entre os anos de 1820 e 1850. Ele surgiu como uma reação ao  Neoclassicismo do século XVIII e ao racionalismo do Iluminismo.

Curiosamente, o termo “romântico” foi empregado pela primeira vez na Inglaterra para definir o tema pitoresco de novelas pastoris e de cavalaria, representando a emoção provocada pela contemplação de uma paisagem.

Desse modo, ao consolidar-se como movimento, o Romantismo buscou libertar os artistas das convenções acadêmicas rígidas (ordem, proporção, simetria) em favor da livre expressão da personalidade e da alma, manifestando-se principalmente na literatura e na pintura.

Características do Romantismo

Inicialmente, para resolver entender as produções do Romantismo, é necessário conhecer os seus principais pilares:

  • Individualismo e subjetivismo: visão de mundo centrada nos sentimentos do “Eu”, em que o artista interpreta a realidade objetiva com base nas suas emoções, as quais podem ser exageradas; 
  • Cultivo da emoção e da fantasia: o inconsciente e a evasão para mundos exóticos onde se possa imaginar livremente são exaltados;
  • Exaltação da natureza: o ambiente natural funciona como um espelho da alma do artista, refletindo e intensificando suas dores, paixões ou fúrias por meio de paisagens intempestivas, selvagens e grandiosas; 
  • Valorização da Idade Média: considerado o período de formação genuína das nações europeias;
  • Idealização dos temas: a pátria é perfeita e a mulher é vista como uma virgem frágil, etérea e inacessível; e
  • Defesa dos ideais nacionalistas: independência e liberdade dos povos.

Contexto histórico e influências

O século XIX foi marcado por fortes mudanças sociais, políticas e culturais causadas especialmente pela ascensão da burguesia, no contexto da Revolução Industrial e da Revolução Francesa

Nesse sentido, o tecnicismo tornou-se patente na sociedade, ao passo que o discurso pelo reconhecimento dos “direitos individuais” e da liberdade de expressão traduziu-se especialmente na expectativa da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão

Apesar de ter absorvido as ideias do “século das luzes” quanto aos direitos individuais, a  principal inspiração estética do movimento Romântico estava em um movimento alemão pré-romântico chamado Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), que colocava o sentimento e a natureza infinita acima da razão.

Além disso, os princípios românticos foram principalmente inspirados no filósofo Jean-Jacques Rousseau, o qual afirmava em sua autobiografia, As Confissões, que desejava mostrar “um homem em toda a verdade de sua natureza”, inaugurando assim o foco na individualidade e autoexpressão

Contudo, para compreender o que realmente foi o movimento romântico, é necessário destacar que, até o século XVIII, a arte era predominantemente ditada pela nobreza. A partir do momento em que a burguesia conquista poder político e econômico e a nobreza europeia é deposta ou enfraquecida, surge a necessidade de redefinir padrões estéticos nos quais se reconheça a nova classe dominante.

Portanto, o Romantismo foi um movimento criado para atender aos ideais burgueses da época. 

Romantismo na Literatura Internacional

Como reflexo direto desse novo cenário histórico, a literatura romântica emergiu como a principal forma de expressão dos valores e dilemas da burguesia, popularizando-se rapidamente por meio dos folhetins em jornais e revistas. 

No lugar de personagens mitológicos e nobres de outrora, as narrativas passaram a consagrar o homem comum como o novo herói idealizado. Assim, os protagonistas eram indivíduos trabalhadores e honrados, cuja jornada era marcada pelo amor genuíno e sacrifício para superar as adversidades.

No cenário internacional, essa sensibilidade desdobrou-se em três grandes vertentes: 

  • o drama existencial e o pessimismo do “Mal do Século”, inaugurados pelo expressionismo trágico de Goethe, na Alemanha; 
  • o arquétipo do herói rebelde, melancólico e atormentado de Lord Byron, na Inglaterra; 
  • e a literatura de denúncia social e humanitária de Victor Hugo, na França. 

O Romantismo nas artes plásticas

Essa mesma urgência sentimental e o desejo de romper com a contenção dos sentimentos e o academicismo não ficaram restritos às produções escritas: elas transbordaram para as telas, inaugurando os principais artistas e obras da pintura Romântica

Dessa forma, na pintura romântica, nota-se que a cor prevalece sobre o desenho linear. O uso de  contrastes fortes de claro-escuro e o foco da luz no ponto emocional que se deseja evidenciar criam um efeito dramático. Além disso, as composições são agitadas, estruturadas em linhas oblíquas e diagonais que reforçam o sentido trágico e heroico.

Pode-se afirmar que nas pinturas românticas são projetadas as próprias emoções do artista e do personagem, fazendo com que o observador seja convidado a compartilhar do mesmo sentimento. 

Pintores e obras do Romantismo internacional

Caspar David Friedrich (Alemanha)

Friedrich é considerado o mestre da pintura moderna de paisagem. Ele utiliza figuras de costas, neblina e ruínas cobertas de vegetação para simbolizar a solidão humana frente à imensidão da natureza e à passagem do tempo. Uma de suas obras mais icônicas é o Caminhante sobre o mar de névoa (1818).

Eugène Delacroix (França)

Eugène foi o representante máximo do romantismo francês, pois uniu o uso proposital das cores ao engajamento político. Sua obra mais famosa, A Liberdade Guiando o Povo (1830) busca personificar os conceitos abstratos da Revolução Francesa.

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A Liberdade Guiando o Povo (1830), de Eugène Delacroix. Óleo sobre tela, 260 x 325cm. Museu do Louvre, Paris. Fonte: Wikimedia Commons / Domínio Público.

Francisco de Goya (Espanha) 

Pintor e gravador espanhol, Goya rompeu com a idealização ao registrar a crueza da realidade e da mente humana. Seu legado transita entre retratos da corte, cenas do povo e lutas históricas pela liberdade, culminando em figuras distorcidas e nas densas Pinturas Negras que anteciparam o expressionismo moderno, como um reflexo dos traumas vividos em sua época.

Sua obra-chave, Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808, imortaliza o terror nos olhos de um  homem de camisa branca iluminado pela lanterna, prestes a ser morto. Essa obra, portanto, retrata a brutalidade das execuções ocorridas na Montanha do Príncipe Pío durante a invasão napoleônica.

J.M.W. Turner (Inglaterra)

Turner foi o mais conhecido pintor romântico inglês. Suas obras destacam-se pelo uso da luz e cores que anteciparam o que viria a ser explorado no movimento impressionista, sendo por isso considerado, um precursor da modernidade. 

Ele era especialmente reconhecido pela sua capacidade de traduzir as emoções e a insignificância humana em cenas de catástrofes, utilizando elementos que representam a fúria indomável da natureza. 

Essas características podem ser especialmente observadas na obra A destruição de um navio de transporte (1810).

O Romantismo no Brasil

A chegada de naturalistas e pintores estrangeiros no início do século XIX ao Brasil, atraídos pela exploração científica, pela exaltação da natureza tropical e pelo fascínio com o exótico, ainda sob o governo de Dom João VI, preparou o caminho para a produção Romântica brasileira anos mais tarde.

O projeto de construção de identidade nacional 

Desse ponto de partida, o Romantismo brasileiro consolidou-se não apenas como um movimento artístico, mas principalmente como um projeto de construção de identidade nacional, patrocinado por Dom Pedro II para consolidar o país recém-independente.

O período Romântico brasileiro incia-se oficialmente com a publicação da obra Suspiros Poéticos e Saudades (1836), do poeta Gonçalves de Magalhães. Como fundador do Romantismo brasileiro, ele declarou o projeto literário que guiaria a produção artística nacional, fundamentado na criação de textos que divulgassem os símbolos da nacionalidade brasileira, resgatados de um passado anterior à chegada dos portugueses.

O Indianismo 

O Romantismo literário no Brasil dividiu-se em três gerações: Indianista, Ultrarromântica e Condoreira. A primeira delas (indianista), encarregou-se de criar o herói nacional e enaltecer as belezas da nação, buscando romper com a herança colonial portuguesa. 

Nesse sentido, os cavaleiros medievais, considerados modelos de conduta exemplar no Romantismo internacional, foram substituídos pela figura do indígena virtuoso: corajoso, forte e em harmonia com a natureza

Isso porque, como já citado, o romantismo foi profundamente inspirado pela filosofia de Rousseau, o que se manifestou especialmente na criação do personagem do nativo idealizado, evidenciando o “Mito do Bom Selvagem”.

Pintura Romântica brasileira

O Romantismo brasileiro nas artes plásticas foi impulsionado pela Academia Imperial de Belas Artes, centro formador e difusor dos principais artistas do século XIX. Alinhada à lógica do Indianismo literário, a pintura romântica nacional não buscava apenas registrar a história, mas sim construir e mitificar um passado glorioso para o Brasil, consolidando os símbolos visuais da nova identidade imperial.

Seus principais representantes e obras foram:

  • Victor Meirelles –  Obras célebres: A Primeira Missa no Brasil e Batalha dos Guararapes. De um lado, é representada uma cena pacífica e idealizada do comportamento dos indígenas diante da chegada dos portugueses, como descrito na Carta de Pero Vaz de Caminha; de outro, o dinamismo e o tumulto de um combate épico que celebra a união das forças brasileiras contra o invasor estrangeiro; e
  • Pedro Américo — Obra célebre: Independência ou Morte (O Grito do Ipiranga). Esta é a clássica pintura que retrata D. Pedro I proclamando a independência do Brasil em seu cavalo às margens do Rio Ipiranga, conferindo ao momento um caráter heroico e monumental que não necessariamente condiz com a realidade dos acontecimentos.

Outros artistas do período: 

  • Manuel de Araújo Porto-alegre: conhecido por pintar a imponência da natureza do Brasil, como nas obras Grande cascata da Tijuca e Floresta brasileira; e
  • Rodolfo Amoedo: pintou obras indigenistas relevantes, a exemplo de Marabá e Último Tamoio.
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A Primeira Missa no Brasil (1860), de Victor Meirelles. Óleo sobre tela, 268 x 356 cm. Fonte: Wikimedia Commons / Domínio Público.
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Floresta Brasileira, Manuel de Araújo Porto-alegre (1850). Óleo sobre tela, 61 x 73,5 cm. Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), Rio de Janeiro. Fonte: Wikimedia Commons / Domínio Público.

A conexão entre a pintura e a literatura no Romantismo brasileiro

É importante destacar que as artes plásticas do período dialogavam diretamente com a produção literária para produzir uma identidade nacional robusta. 

Isso pode ser especialmente notado na maneira como a prosa indianista de José de Alencar encontra sua tradução visual perfeita nas telas de Victor Meirelles e Rodolfo Amoedo. Nelas, a figura do indígena é idealizada como brava, pura e pacífica, como nos romances Iracema e O Guarani. 

Como o Romantismo cai no Enem e vestibulares?

Fique atento à forma como as bancas podem articular esses conceitos:

  • Ruptura estética: questões frequentemente exigem que o aluno identifique como a pintura Romântica rompeu com os padrões de simetria e equilíbrio do Neoclassicismo;
  • Arte e identidade nacional: o papel do Indianismo no Brasil como ferramenta política para consolidar o nacionalismo e a soberania cultural; e
  • Subjetivismo e natureza: o emprego de cenários naturais não como elementos meramente decorativos, mas como a projeção direta do estado emocional, da melancolia ou do sentimento sublime do próprio artista. 

+ Veja também: Burguesia e Realismo: materialismo, consumo e hipocrisia

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