Teatro Elizabetano: contexto histórico, características e transformações

Teatro Elizabetano: contexto histórico, características e transformações

A ascensão de Elizabeth I ao trono não transformou apenas a política inglesa; ela deu início a um período de ruptura com padrões clássicos, profissionalização do teatro e de institucionalização das companhias teatrais sob patrocínio real

A ascensão de Elizabeth I ao trono inglês foi marcada por intensos conflitos de ordem religiosa e política, mas também deu início a um período de vastas produções teatrais e mudanças profundas na dramaturgia.

Para o Enem e os vestibulares, compreender como o Teatro Elizabetano institucionalizou as companhias de atores sob patrocínio nobiliárquico e rompeu com padrões clássicos é essencial para analisar a autonomia do teatro moderno e a estruturação do drama ocidental no século XVI.

Pensando nisso, o Portal Estratégia Vestibulares preparou este artigo para você entender melhor o que foi o Teatro Elizabetano, suas principais características e transformações. Confira! 

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O que foi o Teatro Elizabetano? 

O Teatro Elizabetano (ou teatro da Renascença Inglesa) refere-se à produção dramática ocorrida na Inglaterra durante o reinado de Elizabeth I (1558–1625), a qual se estendeu até o reinado de seu sucessor, Jaime I (período Jacobino), que fundou três companhias teatrais.

Contudo, para compreender melhor este período, é necessário enfatizar que a produção teatral ocorrida nessa época não foi apenas sobre a “criatividade” dos artistas, mas também o resultado de uma confluência de fatores políticos, sociais e econômicos.

Contexto histórico da Renascença Inglesa

Nesse sentido, precisamos elucidar as questões políticas daquela época: Elizabeth I assumiu um trono instável, marcado por crises de legitimidade, conflitos religiosos e a ameaça militar da Armada Espanhola

Embora seu longo reinado tenha consolidado o poder real, a estabilidade não foi imediata, exigindo estratégias culturais para legitimar a linhagem Tudor. É nesse contexto que o teatro entra como uma ferramenta de propaganda e coesão social, o que foi impulsionado pelo patrocínio ativo de artistas e dramaturgos por parte da rainha Elizabeth I. 

Em contrapartida, o teatro naquela época era visto com extrema desconfiança por alguns grupos da sociedade, especialmente os puritanos (calvinistas ingleses), os quais julgavam ser uma atividade imoral e subversiva. Devido a isso, eles tentaram proibir, diversas vezes, as apresentações dentro dos limites da cidade de Londres. 

A Rainha, porém, interferiu e concedeu patrocínio e proteção real às companhias de teatro, como a The Lord Chamberlain’s Men — da qual Shakespeare fazia parte — garantindo a sobrevivência teatral.

A arquitetura do Teatro Elizabetano

A arquitetura dos teatros elizabetanos é um reflexo direto da heterogeneidade do seu público e influenciou diretamente a dramaturgia daquela época. O exemplo mais notável disso é o The Globe Theatre (1599), localizado em Londres, onde a maioria das peças de Shakespeare foi encenada.

O nome do teatro se deve à presença do globo no teto, contendo uma legenda em latim de uma famosa frase de Shakespeare: “O mundo inteiro é um palco”.

Com relação à estrutura, os teatros eram construções de madeira, geralmente circulares ou poligonais (com 8 ou mais lados). Além disso, não havia teto na parte central (o pátio), para aproveitar ao máximo a luz do sol — já que não existia iluminação artificial viável para grandes espaços — e as apresentações ocorriam à tarde.

Outro diferencial arquitetônico é o “palco de avanço” (thrust stage), o qual se projetava para o meio do pátio, diferentemente dos teatros modernos. Consequentemente, o público cercava o palco por três lados, ficando muito próximo dos atores, que frequentemente interagiam com o público. 

A divisão de classes no espaço

Apesar de ser aberto a todos os públicos, havia dentro do teatro duas divisões baseadas na classe socioeconômica:

  • O pátio: no centro, no pátio sem teto e a centímetros do palco ficava o povo mais pobre. Eles pagavam menos para entrar, ficavam de pé, disputando o espaço com a multidão e interagindo com a peça; e
  • As galerias: ao redor do pátio central, havia três níveis de galerias cobertas e com assentos. Ali ficava a classe média e a nobreza, que pagava mais caro para ter conforto e proteção contra a chuva.

Principais transformações e características 

O Teatro Elizabetano trouxe consigo mudanças relevantes na produção teatral, como a profissionalização do teatro, a presença de um público diversificado e a abordagem de temas não-religiosos. 

A profissionalização

Graças à proteção da Rainha e ao crescimento econômico, o teatro deixou de ser uma atividade amadora de feiras e pátios de estalagens para se tornar uma indústria. É a partir desse momento que as profissões de ator e de produtor teatral surgem. As companhias passaram a ter sedes fixas (os teatros) e o público pagava ingresso para entrar. Logo, a arte tornou-se um negócio lucrativo.

Abolição de temas religiosos

Devido à Reforma Inglesa que gerou a ruptura com a Igreja Católica, as peças tornaram-se secularizadas e já não abordavam mais temas religiosos, assim como temas políticos polêmicos eram evitados. Essa restrição tornou-se ainda mais enfática em 1570, quando as peças religiosas foram proibidas.  

O público diversificado

Esta é uma das características mais importantes para o vestibular: o teatro da Renascença Inglesa era “democrático”. Ele não era feito apenas para a elite, nem apenas para o povo. Assim, na plateia estavam o sapateiro, o comerciante rico e os nobres da corte, por exemplo. 

Principais características técnicas do Teatro Elizabetano

Nesse sentido, entre as características técnicas mais relevantes do teatro renascentista inglês estão:

  • Antropocentrismo humanista;
  • Temas diversificados;
  • Peças em 5 atos (introdução, desenvolvimento, clímax e desfecho);
  • Presença de protagonista complexo;
  • Textos escritos com rigor literário; e
  • Caráter popular.

Particularidades do Teatro Elizabetano

Ademais, há duas interessantes particularidades do teatro Renascentista Inglês que precisam ser apresentadas com mais detalhes:

A falta de cenário visual

Não havia mudanças complexas de cenário, jogos de luz e efeitos especiais que temos hoje. Desse modo, para saber se uma cena se passava à noite, por exemplo, era necessário descrever o cenário com palavras. A isso damos o nome de cenografia verbal. Assim, a plateia “enxergava” o cenário com a imaginação. 

A proibição feminina

Durante todo o período elizabetano, as mulheres eram proibidas por lei de atuar no palco, pois era considerado imoral. Então, todos os papéis femininos — desde Julieta e Cleópatra até Lady Macbeth — eram comumente interpretados por homens jovens ou meninos adolescentes que ainda não tinham mudado de voz e usavam maquiagem pesada e perucas. Apenas após a Restauração Monárquica (em 1660) é que as mulheres foram permitidas no palco inglês.

Temas do Teatro Elizabetano

Devido à restrição temática com relação a temas religiosos e políticos, os temas das peças elisabetanas concentravam-se principalmente em eventos históricos, como antiguidade grega ou romana e em temáticas sobre reis medievais

Também era comum que as peças retratassem casos de vingança, romance e conflitos morais.

A ruptura com as regras clássicas 

O Teatro Elizabetano foi na contramão das regras clássicas que dominavam o teatro europeu, as quais se fundamentavam na interpretação rígida da Poética de Aristóteles. Em outras palavras, a tragédia deveria imitar ações nobres dos heróis e gerar a catarse no público; enquanto as peças de comédia teriam o riso e a sátira como focos, por meio da retratação de homens comuns.

Os dramaturgos ingleses resolveram, então, misturar aspectos dos gêneros da tragédia e da comédia. Essa mistura, denominada “tragicomédia” trouxe mais realismo às produções e foi muito explorada por Shakespeare, inclusive para atrair diversos públicos, por combinar ironia, humor e tragédia.

Outro ponto de revolução foi a ruptura com as unidades dramáticas. As regras clássicas diziam que a ação da tragédia deveria ocorrer em um único dia (unidade de tempo) e em um único local físico (unidade de espaço) para manter a verossimilhança. 

Entretanto, o teatro da Renascença Inglesa não adotou esse padrão. Uma peça de Shakespeare, por exemplo, pode pular 15 anos de um ato para o outro (como em Conto de Inverno), ou viajar de um país para o outro na cena seguinte. 

William Shakespeare e Marlowe

O grande destaque do teatro deste período é, sem dúvidas, William Shakespeare. Mas antes de Shakespeare, vale citar Christopher Marlowe, cujo pioneirismo estético e técnico pavimentou o caminho para que a genialidade de Shakespeare florescesse.

Autor da obra-prima Doutor Fausto, Marlowe estabeleceu as bases do que seria o Teatro Elizabetano e foi o primeiro a dominar o “verso branco”. Isso conferiu ao teatro uma sonoridade e uma profundidade filosófica que transformariam para sempre a literatura ocidental.

No entanto, o mérito de William Shakespeare se dá por três razões principais:

Popularização do verso branco

Shakespeare popularizou o uso do pentâmetro iâmbico não rimado, o qual é formado por cinco iambos (pés métricos) por linha, totalizando dez sílabas alternadas entre uma átona e uma tônica. Apesar de soar técnico, uma das principais vantagens dessa métrica é a imitação do fluxo natural da fala, o que permitia que os atores memorizassem mais facilmente e recitassem com naturalidade os textos para o público;

Complexidade psicológica

Inspirado em contos mitológicos antigos, ele deu aos seus personagens uma complexidade psicológica inédita. Eles têm dilemas internos, contradizem a si mesmos, têm conflitos morais e se desenvolvem ao longo da peça; e

O novo herói trágico

No teatro grego, o herói trágico cai porque seu destino foi traçado pelos deuses e é inevitável. Porém, no teatro de Shakespeare, o herói não cai porque “os deuses quiseram”, mas por causa de suas próprias falhas psicológicas e escolhas morais. Assim, a hamartia (falha trágica) é levada ao nível psicológico. Um exemplo disso é Hamlet, o qual falha pela hesitação e melancolia.

Principais obras de Shakespeare

  • Romeu e Julieta;
  • Hamlet;
  • Macbeth;
  • A Megera Domada; 
  • Sonhos de uma Noite de Verão.

Questão de vestibular sobre Teatro Elizabetano

UFRGS (2019)

Leia as seguintes afirmações sobre William Shakespeare.

I. – Shakespeare escreveu tragédias, comédias, romances e poemas.

II. – Shakespeare foi o principal dramaturgo da Era Elisabetana, deixando um legado que ultrapassa a cultura inglesa.

III – Shakespeare criou personagens que se tornaram exemplos da psiquê humana, como Hamlet, Rei Lear e o casal Macbeth. 

Quais estão corretas?

a) Apenas I
b) Apenas II.
c) Apenas I e III.
d) Apenas II e III.
e) I, II e III.

Resposta:

A afirmação I. é a única incorreta, pois Shakespeare não escreveu romances, tendo se concentrado nos gêneros dramático (teatro) e lírico (sonetos). As afirmações II. e III. estão corretas, pois Shakespeare é o autor mais conhecido do período, devido à sua vasta e influente produção. Além disso, os personagens de Shakespeare são arquétipos psicológicos, representando comportamentos ou sentimentos universais. 

Alternativa correta: D

+ Veja também: Teatro medieval gótico: contexto histórico, características e gêneros

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