Teatro medieval gótico: contexto histórico, características e gêneros

Teatro medieval gótico: contexto histórico, características e gêneros

Das igrejas às praças: entenda as características do teatro gótico, seus principais gêneros e como a transição para as ruas influenciou a produção de autores como Gil Vicente e Ariano Suassuna

A transição da idade média central para a baixa idade média não transformou apenas a arquitetura das catedrais, ela também modificou as produções artísticas teatrais. 

Para o Enem e os vestibulares, compreender como o teatro medieval gótico derivou do drama litúrgico românico dentro das igrejas e transformou-se em encenações populares é essencial para analisar a relação entre arte, religiosidade e o crescimento das cidades na baixa idade média.

Pensando nisso, o Portal Estratégia Vestibulares preparou este artigo para você entender as características técnicas do teatro medieval no período gótico, seus principais gêneros e como esse assunto é cobrado no vestibular. Confira!

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O que foi o teatro medieval gótico?

O teatro gótico (ou teatro medieval tardio) compreende as manifestações dramáticas que floresceram na Europa entre os séculos XII e XV, considerado “período gótico” (baixa idade média). 

Esse período marca a transição do drama litúrgico românico, o qual era restrito ao interior das igrejas e ao clero, passando a ser produzido por cidadãos comuns nas praças públicas.

Nesse sentido, as principais mudanças que definem este período são:

  • Adoção da língua vernácula: as peças deixaram o latim e passaram a ser encenadas nas línguas locais (francês, inglês, alemão, português), tornando-se acessíveis; 
  • Mudança de cenário: o cenário deixou de ser o altar para ocupar as praças públicas e mercados; 
  • Temas seculares: no final da Idade Média, a abordagem de temas seculares associados a mensagens de moral ou religiosas tornou-se mais frequente; e
  • Participação das guildas: as corporações de ofício (ferreiros, padeiros, tecelões) tornaram-se as grandes produtoras e financiadoras dos espetáculos.

Função social e religiosa do teatro gótico

Diferente do teatro moderno, focado no entretenimento e na crítica social, por exemplo, o teatro gótico tinha uma forte função pedagógica e cívica.

Assim, ele servia para instruir uma população majoritariamente analfabeta sobre a doutrina cristã e a história da salvação, enquanto expressava o poder e a riqueza das cidades que cresciam comercialmente, no contexto do Renascimento Comercial e Urbano europeu.

Principais características do teatro gótico

Nesse viés, o teatro gótico apresentava as seguintes características:

  • Temas religiosos: o objetivo central não era a estética, e sim a catequese. Assim, as peças traduziam histórias bíblicas e vidas de santos em lições morais acessíveis a uma população majoritariamente analfabeta;
  • Gêneros específicos: as produções eram divididas em peças de mistérios, milagres e moralidades;
  • Encenação e figurinos simples: a encenação evitava o realismo e os cenários e adereços usados tipicamente simples. O figurino era estritamente icônico, fazendo com que a identidade do personagem fosse revelada por adereços óbvios, como chifres para demônios ou aréolas para os anjos; e
  • Carros alegóricos: em alguns lugares, a peça “ia até o povo”. Conhecidos como pageants, esses carros de dois andares permitiam apresentações itinerantes pelas praças das cidades

Gêneros de peças medievais góticas

Como já foi citado, havia três principais categorias de peças medievais: 

Autos de mistério

Eram os espetáculos mais importantes da Idade Média e desenvolveram-se a partir de peças apresentadas por clérigos no interior das igrejas. Esses autos consistiam em ciclos dramáticos que encenavam histórias bíblicas, da Criação ao Juízo Final.  

Ademais, as performances dos autos de mistério poderiam durar vários dias e mobilizar cidades inteiras. Um exemplo disso é a peça O Mistério dos Atos dos Apóstolos, de Arnoul e Simon Gréban, produzida no século XV. Essa obra continha mais de 400 personagens falados e 61.908 versos rimados, precisando de 40 dias para ser encenada.

Autos de milagre

Dramatizam especificamente a vida e martírio dos santos ou intervenções milagrosas da Virgem Maria e São Nicolau. Os autos de milagre originaram-se dos ofícios litúrgicos dos séculos X e XI para grandes festivais públicos no século XIII, incorporando elementos leigos e estimulando a devoção popular.

Um exemplo emblemático é o Le Jeu de Saint Nicolas, de Jean Bodel, escrita no início do século XIII. Nela, é dramatizada a libertação de um cristão e a conversão de um rei sarraceno por intermédio do santo.

Autos de moralidade 

Diferente dos anteriores, não encenavam histórias bíblicas ou a vida dos santos, mas alegorias. Nessa lógica, os personagens personificavam vícios e virtudes ou elementos abstratos, como a Morte, com o objetivo de ensinar lições morais ao público. 

Um exemplo de auto de moralidade é a peça Everyman (Todo Mundo), que dramatiza a jornada da alma humana em direção ao Juízo Final, ilustrando a transitoriedade da vida terrena e a necessidade da prática do bem para a salvação.

Cenografia e espetáculo no teatro medieval gótico

Cenografia simultânea e as “mansões”

Diferente do palco moderno, onde o cenário muda entre os atos, o teatro gótico utilizava a cenografia simultânea. Nessa cenografia, eram utilizadas pequenas estruturas estáticas chamadas “mansões” que representavam locais distintos (Céu, Inferno e Jardim do Éden, por exemplo) e ficavam todas visíveis ao mesmo tempo no local de encenação. 

Desse modo, o espectador deslocava sua atenção de uma mansão para outra conforme a ação progredia. 

O palco processional

Na Inglaterra e Espanha, era também comum o uso de carros alegóricos (pageants). Cada carro continha um cenário e um grupo de atores, que se movia de praça em praça. Então, enquanto o público ficava parado, as cenas “desfilavam” sequencialmente, permitindo que toda a cidade assistisse ao ciclo completo.

Atores e linguagem do teatro gótico

No período Gótico, o teatro era uma atividade de amadores, ou seja, os atores eram cidadãos comuns, membros das guildas. Esse fato conferia ao evento um forte caráter de identidade comunitária.

Ao adotar a linguagem vernacular, isto é, a língua própria de cada lugar, o drama gótico também incorporou elementos do cotidiano, gírias e até um humor grosseiro, criando uma ponte entre o sagrado e o profano que é a marca registrada da cultura medieval tardia.

Teatro sacro x teatro profano

Embora dentro do teatro gótico tenham se consolidado as grandes narrativas sagradas nas praças, é importante ressaltar que com o teatro sacro coexistiu com uma vertente profana e irreverente que pulsava nas ruas. 

Se por um lado o teatro sacro focava na catequese e nos mistérios bíblicos, o teatro profano manifestava-se em farsas, jograis e folguedos carnavalescos, priorizando o riso, a sátira social e o improviso. 

Essa dualidade mostra que a praça medieval era um espaço de contraste entre a solenidade da instrução moral e a espontaneidade das festas populares que celebravam a vida terrena.

Teatro românico, gótico e clássico: semelhanças e diferenças

O teatro medieval da baixa idade média expandiu a herança religiosa do teatro medieval românico. Contudo, levou o espetáculo para as praças públicas, adotando as línguas locais para que o povo pudesse entender e participar. 

Assim, apesar das diferentes abordagens, as formas medievais (românico e gótico) distanciam-se do modelo clássico (grego/romano) por priorizar a instrução moral cristã em vez da busca grega pela catarse por meio da estética teatral.

Para facilitar o entendimento das diferenças entre essas manifestações teatrais, veja a tabela a seguir: 

CaracterísticaTeatro RomânicoTeatro GóticoTeatro Clássico (grego/romano)
IdiomaLatimVernáculo (Línguas locais)Grego ou Latim
LocalInterior da Igreja Praça públicaGrécia: teatro (semicircular)Roma: Anfiteatro (circular/arena)
AtoresMembros do cleroLeigos (Corporações de Ofício)Cidadãos (homens)
PúblicoFiéis em liturgiaMassa urbana e camponesesToda a Pólis (cidadãos)
CenografiaSimbólica e restritaSimultânea (mansões)Espaço único e fixo (Skene)

O legado do teatro gótico

O teatro gótico não desapareceu com o fim da Idade Média, mas atravessou séculos e influenciou produções importantes, como os autos de Gil Vicente e Ariano Suassuna. Essa influência manifesta-se especialmente na estrutura religiosa e pedagógica.

No Humanismo, essa herança é o pilar das obras de Gil Vicente, como no Auto da Barca do Inferno, no qual o palco se torna um tribunal moral para julgar tipos sociais que personificam vícios e virtudes

Essa mesma raiz medieval aparece na literatura moderna, especificamente,  no Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Ao trazer o elemento religioso para o centro da trama, Suassuna resgata a tradição dos dramas de milagre e das moralidades, utilizando a intervenção divina para criticar a hipocrisia humana e as injustiças sociais.

Questão de vestibular sobre teatro gótico

UFMS (2017)

De acordo com Rosenfeld (1993), a vida teatral da Idade Média era, contando com a existência de teatros fixos e de espetáculos regulares e permanentes ou firmemente organizados, rica, espontânea e festiva, florescendo em escolas, conventos, universidades e simplesmente em praça pública. Tão espontânea, que mesmo antes de ser introduzido o palco montado ao lado da igreja, ela irrompia em plena rua, na forma de cortejos e paradas, espécie de blocos carnavalescos, evoluções rítmicas (…) com grande riqueza pantomímica: um teatro popular, portanto, em puro estado de ‘teatro’, sem ‘literatura’ nenhuma. (ROSENFELD, Anatol. Prismas do teatro. São Paulo: Perspectiva; Edusp; Editora da UNICAMP, 1993.)

O teatro medieval foi centrado na oposição entre duas vertentes:

a) Teatro sacro e Teatro profano.
b) Teatro de luzes e Teatro de sombras.
c) Teatro de ético e Teatro de máscaras.
d) Teatro musical e Teatro dramático.
e) Teatro trágico e Teatro épico.

Resposta:

O teatro medieval se estruturou na tensão e coexistência entre o religioso (sacro) e o popular (profano). O teatro sacro surgiu dentro da Igreja (teatro românico e, mais tarde, gótico), com a função pedagógica e religiosa. Em contraste, o teatro profano surgiu fora do espaço religioso, sendo  encenado em praças públicas e feiras, e tinha caráter satírico e cômico.

Alternativa correta: A 

+ Veja também: Tragédia no teatro: definição, origem características e obras

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