As revoltas da Primeira República brasileira expressam as contradições de um regime republicano, excludente e autoritário. Elas surgiram como resposta ao poder oligárquico, à marginalização social e à ausência de participação popular.
Esses movimentos revelam o descompasso entre Estado e a população, marcado pela pobreza, repressão e desigualdade. Também evidenciaram o desgaste da República Oligárquica e a crise que levou ao seu colapso em 1930.
Neste texto, você vai entender quais foram as principais revoltas da Primeira República, suas causas, características e consequências, como a crise do regime oligárquico que preparou o caminho para 1930. Acompanhe abaixo.
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Contextualização histórica e causas das revoltas
A base política da Primeira República foi a chamada “República do Café-com-Leite”. Esse sistema era sustentado pela alternância no poder entre as oligarquias de São Paulo (produtor de café) e Minas Gerais (produtor de leite e gado).
Mecanismos como o coronelismo, no qual líderes locais controlavam votos por meio de favores, coerção e do voto de cabresto, mantinham o poder. Assim, eleições eram meramente formais, excluindo a maioria da população da vida política.
No plano social e econômico, o Brasil vivia uma profunda crise estrutural. No campo, predominava a concentração fundiária, a miséria dos trabalhadores rurais e a inexistência de políticas agrárias.
Já nas cidades, o crescimento urbano acelerado gerava desemprego, moradias precárias, carestia e epidemias. Esse contexto configurava uma situação de elevada tensão social, suscetível a eclosões diante de medidas autoritárias.
Ideologicamente, a República foi fortemente influenciada pelo positivismo, corrente filosófica de origem europeia. Essa doutrina defendia a ordem social e política como condição essencial para o progresso nacional.
No entanto, tal concepção legitimou práticas políticas autoritárias e reforçou o papel do Exército como guardião do regime republicano. Isso foi especialmente evidente nos primeiros anos, marcados por intensa instabilidade política.
Revoltas urbanas
Revolta da Vacina (1904 – Rio de Janeiro)
A então capital federal, o Rio de Janeiro, foi palco de intensas tensões sociais no início da República. Essas tensões se agravaram durante as reformas urbanas conduzidas pelo prefeito Pereira Passos.
O projeto de modernização do Rio de Janeiro ficou conhecido como “Bota Abaixo”. Ele resultou na demolição de cortiços e na expulsão de milhares de pobres do centro da cidade.
Nesse contexto, também foi implementada pelo governo a vacinação obrigatória contra a varíola, sob liderança de Oswaldo Cruz. A população reagiu não apenas à vacina, mas principalmente à intervenção autoritária do Estado na vida privada.
Agentes públicos invadiam residências e desconsideravam as condições sociais da população. A revolta revelou que a modernização republicana beneficiava poucos, o que aprofundava a exclusão social existente.
Revolta da Chibata (1910 – Rio de Janeiro)
A Revolta da Chibata ocorreu dentro das Forças Armadas, mais especificamente no interior da Marinha brasileira. Esse episódio evidenciou conflitos profundos existentes na estrutura militar da Primeira República.
Os marinheiros, em sua maioria negros e ex-escravizados, eram submetidos a castigos físicos como a chibata. Essa prática violenta era herdada diretamente do período escravista e mantida no regime republicano.
Liderados por João Cândido, o “Almirante Negro”, os revoltosos tomaram importantes navios de guerra. Eles exigiam o fim dos castigos corporais e melhores condições de trabalho.
Embora o governo tenha prometido anistia, a repressão posterior foi violenta. Logo, revelou o racismo estrutural, a desigualdade social e as contradições das instituições republicanas.
Revoltas rurais e movimentos messiânicos
Guerra de Canudos (1896-1897 – Bahia)
No sertão baiano, a exclusão social assumiu contornos dramáticos com a Guerra de Canudos. Liderados por Antônio Conselheiro, milhares de sertanejos fundaram a comunidade de Belo Monte.
Essa comunidade funcionava como refúgio contra a miséria, os impostos abusivos e o abandono estatal. O movimento possuía forte caráter religioso e comunitário, mas foi visto pela República como ameaça política, rotulada de fanática e monarquista.
O governo respondeu com extrema violência, enviando quatro expedições militares até destruir completamente o arraial. O episódio evidencia o abismo entre o Brasil oficial e o Brasil real.
Dica Enem: a obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, é fundamental para compreender e interpretar Canudos sob uma perspectiva social e geográfica.
Guerra do Contestado (1912-1916 – Sul do Brasil)
A Guerra do Contestado ocorreu em uma região disputada entre os estados do Paraná e de Santa Catarina. Essa área foi marcada pela expulsão de camponeses devido à construção de uma ferrovia pela Brazil Railway Company.
O desemprego e a perda de terras estimularam comunidades lideradas por monges messiânicos, como José Maria. Esses líderes ofereciam apoio espiritual diante da exclusão social. O movimento revelou a ausência do Estado e o conflito agrário regional.
O conflito foi encerrado com forte repressão militar por parte do Estado. A guerra resultou na destruição das comunidades camponesas e na consolidação do controle estatal sobre a região.
Diferentemente de Canudos, o Contestado teve forte relação com a questão fundiária e com a presença do capital estrangeiro. Assim, evidenciou o alinhamento do Estado aos interesses econômicos em detrimento da população local.
Revoltas militares e descontentamento político
A Revolta da Armada (1893–1894) foi uma das primeiras crises da República, envolvendo setores da Marinha contrários ao governo central. Parte desses grupos era simpática ao federalismo e ao passado monárquico.
O conflito evidenciou a fragilidade do novo regime republicano. Além disso, revelou a disputa entre Marinha e Exército pelo controle político do Estado e da condução do poder nacional.
Nesse contexto, na década de 1920, destacou-se o Tenentismo, movimento liderado por jovens oficiais do Exército, insatisfeitos com a corrupção eleitoral, o coronelismo e o domínio oligárquico.
Entre os principais episódios estão o 18 do Forte de Copacabana (1922) e a Coluna Prestes (1925–1927), que percorreu o interior denunciando injustiças do regime. O Tenentismo representa a crise interna e antecipa o colapso da Primeira República.
Legados e a crise da Primeira República
As revoltas da Primeira República funcionam como termômetro social, revelando uma sociedade desigual, excludente e autoritária. Urbanas ou rurais, civis ou militares, todas expressam o descontentamento com um Estado que governava para poucos.
Esse acúmulo de tensões sociais e políticas, aliado ao avanço do Tenentismo, contribuíram para o enfraquecimento da República Oligárquica. Esse processo abriu caminho para a Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder.
Assim, compreender essas revoltas é essencial para interpretar a crise do regime republicano. Além disso, elas ajudam a entender a formação política e social do Brasil.
Questão do vestibular sobre as revoltas da Primeira República
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O período da Primeira República no Brasil (1889-1930) foi marcado por diversas rebeliões e revoltas motivadas por questões sociais, políticas, econômicas e até religiosas. Considerando os acontecimentos do contexto mencionado e suas características, é CORRETO afirmar.
A) Ocorrida em 1912, a Guerra do Contestado foi um conflito que envolveu a questão de limites entre as províncias do Paraná e Santa Catarina, e teve como líder o monge José Maria. Envolvendo um grande número de sertanejos, os conflitos abarcaram ainda fazendeiros e forças policiais.
B) No ano de 1910, no Rio de Janeiro, marinheiros revoltaram-se contra os castigos corporais a que eram submetidos, tomando diversos navios e ameaçando bombardear a cidade, caso suas reivindicações não fossem atendidas. Esse episódio ficou conhecido como Revolta do Forte de Copacabana.
C) Em 1904, durante o governo do prefeito Pereira Passos, teve lugar na cidade do Rio de Janeiro a Revolta da Vacina. Tal revolta, envolvendo vários setores da população, foi motivada pela ausência de políticas públicas para erradicação de doenças como febre amarela e varíola, comuns no contexto urbano da cidade.
D) Antônio Conselheiro, líder do movimento conhecido como Guerra de Canudos (1896-1897), era um violento e sanguinário líder religioso que incitava seus seguidores a cometerem atos de barbárie contra os soldados enviados pelo governo para o sertão da Bahia.
Alternativa correta:
A
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