O neorrealismo surge em um período de profundas transformações nas esferas sociais e políticas, quando crises econômicas, regimes autoritários, guerras e desigualdades afetavam milhões de pessoas.
E foi a partir disso que artistas passaram a focar na realidade cotidiana e em grupos que raramente ocupavam o centro das representações artísticas.
Na literatura e no cinema, o movimento encontrou formas distintas de retratar a pobreza, a exploração do trabalho e os conflitos sociais, sobretudo na Europa das décadas de 1930 e 1940.
Neste artigo que o Portal Estratégia Vestibulares preparou, você conhecerá as origens e as principais características do neorrealismo, sua expressão na literatura portuguesa e a contribuição do cinema neorrealista italiano para a história da arte. Boa leitura!
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O que é o neorrealismo?
O neorrealismo foi um movimento artístico e cultural que ganhou força na Europa a partir das décadas de 1930 e 1940, especialmente na literatura e no cinema. Seus artistas voltavam-se para a representação da realidade social com olhar crítico e direcionavam sua atenção para a vida cotidiana, as desigualdades e as dificuldades enfrentadas pelas classes populares.
O movimento retomou alguns princípios do realismo do século XIX, como o interesse pela realidade concreta e pelos problemas sociais, porém surgiu em um contexto histórico diferente. As experiências das guerras, das crises econômicas e da ascensão de regimes autoritários levaram os neorrealistas a abordar questões urgentes de seu próprio tempo.
Com isso, o neorrealismo, além de retratar indivíduos e suas experiências pessoais e subjetivas, também revelava as relações sociais e econômicas que influenciavam a vida das pessoas, colocando trabalhadores, camponeses e grupos marginalizados no centro das narrativas.
Contexto histórico
A Crise de 1929 agravou o desemprego e a pobreza em diversos países europeus, enquanto a ascensão de regimes autoritários transformava o cenário político do continente.
Na Itália, o fascismo de Benito Mussolini já estava no poder desde 1922. Em Portugal, o Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar, implementou uma ditadura que se manteve entre 1933 e 1974. A censura e a repressão política limitaram a liberdade de expressão, criando um ambiente no qual a produção artística também adquiria uma dimensão crítica.
A Segunda Guerra Mundial (1939–1945) acentuou esse cenário de violência, pobreza e destruição. Diante dessas condições, diversos escritores e cineastas encontraram inspiração para criar obras que abordassem a realidade de trabalhadores, camponeses e outros grupos afetados pelas desigualdades e pelas transformações sociais.
O contexto histórico, portanto, foi decisivo para o desenvolvimento de uma arte preocupada em representar e questionar a realidade de seu tempo.
Principais características do Neorrealismo
A pobreza, a exploração do trabalho, a desigualdade e as relações de poder aparecem como temas recorrentes nas obras neorrealistas, fazendo com que a arte expresse conflitos presentes no cotidiano.
Em relação à linguagem, ela tende a ser mais direta e acessível, fazendo uso de termos populares e coloquiais, ao passo que a construção das personagens privilegia indivíduos comuns e suas experiências.
Os artistas procuravam expor as contradições e dificuldades da realidade social, aproximando a produção artística das condições vividas por grande parte da população.
Essa preocupação também conferiu ao movimento uma dimensão de denúncia social. A representação da realidade era uma espécie de instrumento de reflexão sobre as estruturas econômicas e políticas que produziam desigualdades. Para as provas, é importante lembrar alguns elementos-chave:
- Crítica social e denúncia das desigualdades;
- Representação das classes populares, especialmente trabalhadores e camponeses;
- Linguagem objetiva e acessível;
- Valorização da realidade cotidiana;
- Foco no cidadão comum: o homem do povo e a parcela marginalizada são o foco das narrativas e das obras; e
- Questionamento das estruturas sociais e econômicas.
Neorrealismo na literatura portuguesa
Na literatura portuguesa, o neorrealismo emerge durante o Estado Novo, período ditatorial iniciado em 1933 sob a liderança de António de Oliveira Salazar. Nesse contexto, escritores começaram a abordar problemas envolvendo a pobreza, a exploração dos trabalhadores rurais, as desigualdades sociais e as condições de vida das camadas populares.
O movimento ganhou espaço a partir da década de 1930, especialmente com a publicação de Gaibéus, de Alves Redol, em 1939. A obra retrata a vida de trabalhadores rurais envolvidos na colheita de arroz no Ribatejo e tornou-se um marco do neorrealismo português.
Os escritores neorrealistas portugueses queriam aproximar a literatura dos problemas concretos da sociedade. Para isso, privilegiavam personagens populares e situações cotidianas, construindo narrativas em que era possível observar as relações de trabalho e as desigualdades presentes no país.
Alves Redol e os principais autores
Alves Redol, como vimos, é uma figura de destaque quando o assunto é neorrealismo português. Em Gaibéus (1939), seu primeiro romance, acompanhou a rotina de trabalhadores rurais do Ribatejo e focou nas relações de trabalho, na pobreza e nas desigualdades sociais.
Outros escritores também contribuíram para o desenvolvimento dessa literatura. Soeiro Pereira Gomes, em Esteiros (1941), retratou a exploração e a pobreza enfrentadas por crianças e trabalhadores.
Manuel da Fonseca abordou a vida das populações rurais do Alentejo, enquanto Carlos de Oliveira voltou sua atenção para as dificuldades sociais e econômicas vividas na região da Gândara.
Ainda que cada autor apresentasse características próprias, suas obras compartilhavam o interesse pela realidade social portuguesa e pela representação das camadas populares.
Neorrealismo no cinema italiano
A ascensão do neorrealismo italiano se deu no período posterior à Segunda Guerra Mundial, quando a Itália enfrentava uma crise generalizada: miséria, desemprego e as consequências da destruição provocada pelo conflito. Nesse cenário, cineastas tentaram representar a vida de pessoas comuns e os problemas sociais que atingiam a população.
Uma das características mais marcantes foi a preferência por locações reais, em vez de grandes estúdios, além do uso de atores não profissionais. As produções apresentavam uma linguagem visual mais simples e acompanhavam personagens comuns, o que aproximava o cinema das experiências vividas nas ruas, nos bairros populares e no campo.
Entre os principais diretores estão Roberto Rossellini, com Roma, Cidade Aberta (1945), Vittorio De Sica, responsável por Ladrões de Bicicletas (1948), e Luchino Visconti, diretor de A Terra Treme (1948). Essas obras abordaram questões ligadas à exploração e à desigualdade, e isso fez com que o cinema fosse um importante meio de reflexão sobre a sociedade italiana do pós-guerra.
Assim como na literatura portuguesa, o neorrealismo italiano utilizou a arte com o objetivo de aproximar o público de realidades sociais concretas, dando visibilidade a personagens e experiências que muitas vezes permaneciam à margem das representações tradicionais.
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