Regionalismo literário: definição, características e obras

Regionalismo literário: definição, características e obras

Entenda o conceito e as características do regionalismo literário brasileiro, conheça a evolução das suas fases e veja como o tema pode ser cobrado no Enem e nos vestibulares

Compreender o regionalismo literário brasileiro é crucial para o Enem e vestibulares, pois as bancas podem explorar a variação linguística, o contexto socioeconômico de obras clássicas e as diferentes abordagens ao longo do Romantismo e do Modernismo.

Pensando nisso, o Portal do Estratégia Vestibulares preparou este artigo para você entender melhor as características, as fases e os principais autores do regionalismo no Brasil. Confira!

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O que é literatura regionalista?

A literatura regionalista é um tipo de produção literária que se volta para uma região específica do país, buscando retratar sua cultura, geografia, valores e costumes, bem como os problemas socioeconômicos.

Esse tipo de produção surgiu com o Romantismo, no contexto do Segundo Reinado. Nesse período, os autores buscavam forjar um espírito nacionalista na nação recém independente, diante das instabilidades políticas vivenciadas no Brasil.

Características gerais da prosa regionalista

Embora assuma aspectos distintos em cada momento histórico, a prosa regionalista fundamenta-se em quatro pilares:

  • Determinismo e relação homem-meio: a paisagem física, como a seca da caatinga, a vastidão dos pampas e os engenhos de açúcar, molda o comportamento, a psicologia e o destino das personagens;
  • Mapeamento de tipos sociais: figuras até então marginalizadas (o vaqueiro, o retirante, o coronel, o gaúcho, o caboclo, o jagunço) ganham visibilidade; 
  • Espaço geográfico: o cenário é um elemento estruturador da trama; a seca do Nordeste, por exemplo, não é apenas um fenômeno climático em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, mas propulsor do desterro e da degradação da condição humana da família de Fabiano;
  • Variação linguística diatópica: o léxico, a sintaxe e as construções orais próprias de cada localidade são incorporadas no texto literário, rompendo com a hegemonia da norma-padrão, tipicamente urbana; e
  • Tensão entre centro e periferia: expõe o contraste entre a modernização das metrópoles e o abandono estrutural vivido pelas populações do interior.

Fases do Regionalismo no Brasil

O regionalismo não se limitou a uma época ou movimento literário, mas atravessou todo o processo de formação da literatura brasileira, adaptando-se às preocupações de cada época. Vamos entender melhor as características de cada fase do regionalismo:

Regionalismo Romântico (Século XIX)

  • Foco: construção do mito da identidade nacional, valorização do “Brasil autêntico” e integração regional;
  • Enaltecimento da natureza exótica e pitoresca: a paisagem do interior (sertão, pampas, cerrado) é pintada como um cenário grandioso, belo e poético;
  • Idealização e valorização do homem do Interior: o homem do interior (o vaqueiro, o gaúcho) é retratado como uma figura mítica, valente, nobre e moralmente perfeita;
  • Destaque para os costumes locais: registra costumes, festas e tradições regionais; e
  • Linguagem: mantém a linguagem subordinada à norma culta e poética da época, apesar de introduzir termos locais.

Principais obras regionalistas do Romantismo

As obras e autores de destaque na prosa regionalista do Romantismo brasileiro são:

  • José de Alencar (1829-1877) — Til (1872), O Gaúcho (1870) e o Tronco do Ipê (1872); 
  • Bernardo Guimarães (1825-1884) — A Escrava Isaura (1875), O Ermitão de Muquém (1869) e O Seminarista (1872); 
  • Franklin Távora (1842-1888)  — O Seminarista (1872); e
  • Visconde de Taunay (1843-1899) — Inocência (1872).

Transição Pré-Modernista e 1ª Fase Modernista (Início do Século XX) 

  • Foco: diagnóstico documental e denúncia da situação de abandono das regiões do interior pelo poder público;
  • Pré-Modernismo: o regionalismo do início do século XX teve sua base consolidada no Pré-Modernismo, período de transição de 1902 a 1922, que antecipou as inquietações do Modernismo;
  • Fim da idealização: o interior deixa de ser um paraíso poético e passa a ser visto como um espaço de atraso, miséria e esquecimento;
  • O sertanejo real: o habitante do interior deixa de ser idealizado e é visto ora como o homem forte que resiste à seca, ora como o caipira abandonado pelas políticas sanitárias; e
  • Linguagem científica e jornalística: mistura do rigor analítico e sociológico com a denúncia das oligarquias e do coronelismo.

Principais obras do período

  • Euclides da Cunha (1866–1909) — Os Sertões (1902).
  • Monteiro Lobato (1882–1948) — Urupês (1918) – obra que introduz o icônico personagem Jeca Tatu; 
  • Valdomiro Silveira (1873–1941) — Os Caboclos (1920); e
  • Simões Lopes Neto (1865–1916) — Contos Gauchescos (1912).

2ª Fase Modernista – Romance de 30 (1930–1945)

  • Foco: denúncia social, explanação do drama da seca e crítica evidente ao coronelismo;
  • Determinismo e aridez: o meio geográfico hostil atua como uma força que molda, oprime e muitas vezes animaliza o homem; 
  • Narrativa crua e enxuta: o estilo da escrita é notoriamente mais “seco”, direto e realista; essa postura adotada é proposital e tem como fim espelhar a própria aridez da paisagem do sertão; e
  • Miséria e retirantes: ênfase nos grandes problemas coletivos do Nordeste, a exemplo da fome, da migração forçada, dos ciclos econômicos decadentes e da exploração do trabalhador.

Principais obras regionalistas da 2ª fase Modernista

  • José Américo de Almeida (1887–1980) — A Bagaceira (1928) — é considerada a obra que inaugurou a vertente regionalista de 30;
  • Rachel de Queiroz (1910–2003) — O Quinze (1930);
  • Jorge Amado (1912–2001) — Cacau (1933) e Terras do Sem-Fim (1944);
  • Graciliano Ramos (1892–1953) — Vidas Secas (1938) e São Bernardo (1934);
  • José Lins do Rego (1901–1957) — Menino de Engenho (1932) e Fogo Morto (1936); e
  • Erico Verissimo (1905–1975) — O Tempo e o Vento (apesar de o primeiro volume ter sido publicado em 1949, ele foi concebido no contexto do regionalismo do Sul desta fase.)

3ª Fase Modernista: regionalismo universalista (1945)

  • Foco: o sertão físico é transformado em um espaço para profundas indagações existenciais e filosóficas;
  • “O Sertão é o Mundo”: o cenário mineiro serve de palco para conflitos humanos universais (como o bem e o mal, Deus e o Diabo, o amor e o medo);
  • Reinvenção da linguagem: há uma ruptura radical com a sintaxe tradicional através de neologismos, arcaísmos e a incorporação da fala popular na poesia; e
  • O sertanejo filósofo: o habitante do interior deixa de ser apenas uma vítima social e passa a ser retratado com densidade psicológica e profunda reflexão metafísica.

Principais obras regionalistas da 3ª fase Modernista:

  • João Guimarães Rosa (1908–1967) — Sagarana (1946) e Grande Sertão: Veredas (1956);
  • Mário Palmério (1916–1996) — Vila dos Confins (1956);
  • Herberto Sales (1917–1999) — Cascalho (1944); e
  • Bernardo Élis (1915–1997) — Ermos e Gerais (1944).

Guimarães Rosa e o Regionalismo Universalista

João Guimarães Rosa foi o responsável por revolucionar a literatura de ambientação regional, a partir da publicação de Sagarana e Grande Sertão: Veredas, consolidando o chamado Regionalismo Universalista (ou Neorregionalismo).

Isso ocorre porque Guimarães Rosa transforma o sertão mineiro, um espaço geográfico muito específico, em uma metáfora do próprio Cosmos, símbolo da condição humana. Em outras palavras, o sertanejo deixa de ser meramente um tipo social subjugado pela miséria (como era apresentado nas obras das fases modernistas anteriores) e torna-se um sujeito trágico, atravessado por dilemas morais, metafísicos e amorosos.

Essa ideia pode ser especialmente resumida na seguinte frase:

“O sertão é do tamanho do mundo. O sertão é dentro da gente.”

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas.

Além da elevação metafísica do cenário, Rosa promoveu uma verdadeira revolução linguística, pois criou neologismos, recuperou arcaísmos, alterou completamente a sintaxe tradicional e fundiu a fala do caboclo mineiro com a linguagem filosófica erudita, provando que a matéria regional é capaz de formular perguntas existenciais profundas.

Questão de vestibular sobre regionalismo literário

Unicamp (2015)

Considere o fragmento abaixo, extraído de Vidas secas, de Graciliano Ramos.

O pequeno sentou-se, acomodou-se nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender.

(Graciliano Ramos. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 57.)

No romance Vidas secas, a alteridade é construída ficcionalmente. Isso porque o narrador

a) impõe seu ponto de vista sobre a miséria social das personagens, desconsiderando a luta dessas personagens por uma vida mais digna. 
b) permite conhecer o ponto de vista de cada uma das personagens e manifesta um juízo crítico sobre o drama da miséria social e econômica.
c) relativiza o universo social das personagens, uma vez que elas estão privadas da capacidade de comunicação.
d) analisa os dilemas de todas as personagens e propõe, ao final da narrativa, uma solução para o drama da miséria social e econômica.

Resposta: 

No trecho de Vidas Secas, obra expoente da Segunda Fase do Regionalismo Modernista, a construção da alteridade ocorre porque o narrador dá voz e dignidade à subjetividade dos retirantes, por meio do discurso indireto livre, apesar da limitação vocabular imposta pela seca. Esse olhar íntimo sobre a família permite a Graciliano Ramos denunciar criticamente a miséria e a desigualdade socioeconômica do Nordeste, compromisso central do Romance de 30. 

Alternativa correta: B.

+ Veja também: Prosa indianista: características do romantismo indianista

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