Sociologia da cultura: entenda a Escola de Frankfurt e seus principais teóricos

Sociologia da cultura: entenda a Escola de Frankfurt e seus principais teóricos

Da Indústria Cultural de Adorno e Horkheimer à Modernidade Líquida de Bauman: aprenda os principais conceitos e autores da Sociologia da Cultura para o Enem e vestibulares

Compreender o papel dos teóricos da cultura e a evolução da Sociologia é crucial para o Enem e vestibulares, pois as bancas podem explorar a relação entre a indústria cultural, as desigualdades sociais e o comportamento da sociedade.

Pensando nisso, o Portal do Estratégia Vestibulares preparou este artigo para você entender melhor a Escola de Frankfurt, seus principais teóricos e os conceitos que mais caem nas provas. Confira!

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O que é cultura?

É comum as pessoas associarem “cultura” ao conhecimento erudito. Por exemplo, alguém que lê clássicos ou frequenta museus costuma ser rotulado como “culto”. Entretanto, para a Sociologia essa definição é reducionista e inadequada. 

Em termos amplos, cultura é o conjunto de saberes, crenças, valores, normas, costumes, símbolos e práticas materiais e imateriais compartilhados pelos membros de uma sociedade. Trata-se de uma teia de significados construída coletivamente e transmitida entre as gerações por meio da socialização. 

Antropologia Clássica X Sociologia

A Antropologia Clássica, impulsionada pelos estudos do britânico Edward Tylor (1832-1917), debruçou-se sobre a diversidade cultural e o comportamento adquirido pela aprendizagem social como ferramenta para a sobrevivência humana.

Nas palavras de Tylor, a cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”.

Já a Sociologia concentrou suas atenções nas disputas internas e nas dinâmicas de poder dentro da própria sociedade:

  • Como a cultura é utilizada pelas classes dominantes para legitimar seu poder;
  • Como funciona a alienação das massas; e
  • De que forma o consumo molda as identidades no mundo globalizado.

O que foi a Escola de Frankfurt? 

Durante as décadas de 1920 e 1930, um grupo de integrantes do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt fundou a chamada Escola de Frankfurt e incorporaram conceitos da tradição marxista para examinar as transformações sociais da Europa no início do século XX. 

Entre os seus focos de estudo, estavam as razões pelas quais as previsões de Marx sobre a eclosão de revoluções operárias nas sociedades ocidentais industrializadas não se concretizaram, além dos fatores socioculturais associados à ascensão do fascismo e do nacional-socialismo no período entre-guerras.

Em suas análises, esses teóricos argumentavam que as indústrias da comunicação e do entretenimento haviam se integrado à estrutura econômica capitalista. A partir dessa ideia, sustentavam que a produção cultural passara a seguir lógicas de padronização industrial, o que, na visão deles, alterava o papel tradicional da arte e influenciava a formação da opinião pública nas sociedades de massa.

Dentre os integrantes da Escola de Frankfurt, estavam Theodor Adorno, Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse e Jürgen Habermas como os principais nomes.

Max Horkheimer e Theodor Adorno

Foi sob a liderança do sociólogo Max Horkheimer, em 1930, que a escola de Frankfurt unificou a sociologia, a filosofia e a economia. Mais tarde, na obra Dialética do Esclarecimento (1947), Horkheimer e Theodor Adorno analisam a evolução do pensamento racional do Iluminismo até o século XX, apontando o predomínio da Razão Instrumental. 

Esse conceito descreve uma forma de pensamento puramente técnica e pragmática, focada na eficiência operacional e na dominação dos recursos e indivíduos, sem a ponderação de valores éticos ou fins morais.

Foi diante desse cenário que os autores conceituaram o termo Indústria Cultural para descrever a integração da produção artística e midiática às lógicas do mercado capitalista. 

Além disso, Adorno e Horkheimer rejeitaram o termo “cultura de massa”, argumentando que as produções não nasciam espontaneamente do povo, mas eram fabricadas industrialmente para o consumo passivo e em massa.

Os aspectos centrais da Indústria Cultural incluem:

  • Padronização e repetição: a aplicação de fórmulas narrativas e estéticas pré-definidas para garantir a assimilação rápida pelas pessoas e o retorno econômico;
  • Objetificação da arte: a transformação da obra de arte em uma mercadoria com valor de troca, deixando de ser um item contemplativo; e
  • Passividade do consumidor: a oferta de conteúdos direcionados ao entretenimento que exigem baixo nível de esforço reflexivo, atuando como elemento de conformidade social.

Walter Benjamin e Herbert Marcuse

Apesar das convergências, outros integrantes da escola apresentaram perspectivas distintas sobre a tecnologia e a cultura:

Walter Benjamin

Em A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica (1936), Benjamin aponta que a reprodutibilidade da técnica, como no cinema e na fotografia, remove a “aura” das obras de arte. Em outras palavras, a obra perde a sua singularidade e a tradição. Porém, ele identificou um caráter democratizante nesse processo, visto que o acesso ampliado à arte poderia servir como instrumento de reflexão e mobilização política.

Herbert Marcuse

Marcuse, em sua obra O Homem Unidimensional (1964), analisa como o capitalismo industrial gera “falsas necessidades” ligadas ao consumo contínuo. Segundo sua tese, a integração dos indivíduos ao sistema produtivo e de consumo reduz a capacidade de crítica social, moldando o comportamento em uma única dimensão de concordância com o modelo vigente.

Jürgen Habermas

Jürgen Habermas é considerado o principal expoente da chamada “terceira geração” da escola de Frankfurt. Ele voltou sua atenção para o funcionamento da democracia e do debate social, diferentemente dos primeiros teóricos da Escola.

A Degradação da Esfera Pública

Habermas desenvolveu a análise sobre a esfera pública, que consiste no espaço simbólico (ou físico) no qual os cidadãos se reúnem para debater temas de interesse comum de forma livre e racional, buscando consensos para orientar a vida em sociedade.

Na visão do pensador, a modernidade e a expansão dos meios de comunicação de massa promoveram um enfraquecimento desse espaço. Em vez de atuar como um espaço de debate deliberativo, a esfera pública foi moldada pela lógica do consumo e pelo entretenimento, transformando o cidadão em um mero espectador passivo.

Teoria do Agir Comunicativo

Para superar esse cenário, Habermas defende a retomada do debate democrático deliberativo, inspirado no modelo das antigas ágoras gregas. Dessa forma, ele propõe a Teoria do Agir Comunicativo: a ideia de que o entendimento coletivo deve ser construído pelo diálogo aberto, em que os argumentos são avaliados pela sua validade racional, e não pela imposição de poder ou autoridade econômica.

Perspectivas contemporâneas sobre a cultura

Na segunda metade do século XX, a análise da cultura desdobrou-se para além do modelo da Indústria Cultural e passou a incorporar conceitos sobre diferenciação, status e dinâmicas sociais contemporâneas.

Nesse contexto, os teóricos de destaque do período contemporâneo são Pierre Bourdieu e Zygmunt Bauman.

Pierre Bourdieu e o Capital Cultural e Reprodução Social

O sociólogo francês Pierre Bourdieu analisou como os hábitos e gostos culturais relacionam-se com as estruturas de classe. Nesse sentido, Bourdieu criou o conceito de “Capital Cultural”: o conjunto de conhecimentos, habilidades, títulos e repertório cultural acumulados que garantem status ao indivíduo na sociedade. 

Assim, esse Capital Cultural pode ser categorizado em três formas:

  1. Incorporado: inclui as disposições mentais e corporais duradouras (hábitos), expressas no vocabulário, na postura e no gosto estético, bens geralmente adquiridos no convívio familiar e com pessoas próximas;
  2. Objetivado: posse de bens de valor cultural, a exemplo de livros, obras de arte e instrumentos; e 
  3. Institucionalizado: títulos escolares e diplomas academicamente reconhecidos.

A partir dessa premissa, Bourdieu argumenta que as instituições de ensino tendem a valorizar o capital cultural herdado pelas classes de maior renda. É nesse contexto que surge o conceito de “Violência Simbólica”: o sistema educacional e cultural passa a atuar como um mecanismo de reprodução e legitimação das desigualdades sociais existentes.

Zygmunt Bauman: a cultura na modernidade líquida

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, debruçou-se no estudo sobre as transições sociológicas ocorridas no final do século XX e início do XXI. A partir disso, ele descreveu a sociedade contemporânea por meio do conceito de “Modernidade Líquida”.

A Modernidade Líquida, em contraste com as estruturas institucionais fixas da “modernidade sólida” (período anterior à Segunda Guerra), é caracterizada por sua fluidez, volatilidade, incerteza e pela constante transformação das relações humanas e das instituições, que já não conseguem manter sua forma por muito tempo. Um exemplo disso é a perda da relação familiar mais duradoura e da confiança entre os indivíduos. 

Nesse cenário, os bens culturais passam a ser pautados pelo consumo imediato e pelo descarte acelerado. Associado a isso, a construção da identidade deixa de se apoiar primordialmente no pertencimento comunitário ou produtivo para se estruturar nas escolhas de consumo e no acompanhamento de tendências transitórias.

Desse modo, as características essenciais da modernidade líquida são:

  • Fragilidade dos laços e “conexões” superficiais;
  • Consumo irracional e supervalorização das marcas;
  • Identidade pautada no ter (“o sujeito é o que consome”);
  • Individualização da responsabilidade profissional e o sujeito como “empreendedor de si”; e
  • Submissão das instituições e dos indivíduos à lógica do mercado.

Conceitos fundamentais associados aos teóricos

Para resumir o conteúdo estudado neste artigo, sintetizamos os principais conceitos em um quadro comparativo:

TeóricoConceito-chave
Adorno e HorkheimerIndústria Cultural: transformação da arte em mercadoria padronizada para alienar as massas.
Walter BenjaminPerda da Aura: destruição do caráter único da obra de arte pela reprodução técnica.
Herbert MarcuseFalsas necessidades de consumo criadas pelo mercado.
Jürgen HabermasEsfera pública e ação comunicativa: defesa do resgate do debate democrático e do diálogo racional livre de coerção.
Pierre BourdieuCapital Cultural: recursos simbólicos acumulados que determinam o status e reproduzem desigualdades sociais. 
Zygmunt BaumanModernidade Líquida: instabilidade das relações sociais.

Questão de vestibular sobre sociologia da cultura 

Enem (2024)

Atentando para os processos midiáticos na formação da percepção do real, na televisão predomina o visível sobre o inteligível, ocasionando uma visão fragmentada sobre o ponto de vista de conjunto, em que o real não é construído pelo sujeito, em que não somos autônomos, deixamos de ser protagonistas e passamos a ter “ideias” de realidade. Há uma dinâmica de manipulação ideológica imposta pela mídia, interferindo na construção de nossos alicerces, na nossa percepção, na apreensão dos saberes. Desse modo, a televisão gera alienação e instiga a desumanização, salvaguardando as exceções.

CARNEIRO, I. L. B. A Antropologia Filosófica: a educação como elemento fundante do ser humano. Salvador: Faculdade Baiana de Direito, 2010 (adaptado).

Ao produzir uma leitura sobre os meios de comunicação, o texto apresenta quais características da realidade criticada?

a) A massificação cultural e a submissão à indústria do consumo.
b) A produção artística e a supressão dos interesses coletivos.
c) O conflito existencial e a contraposição às regras de mercado.
d) A independência moral e a consolidação das liberdades individuais.
e) O conhecimento estratificado e a democratização dos valores tradicionais.

Resposta: 

O excerto critica o impacto dos meios de comunicação de massa na formação da consciência humana. O autor destaca que a mídia impõe uma “dinâmica de manipulação ideológica”, gera visão fragmentada, reduz a autonomia do sujeito e provoca alienação e desumanização. Essa abordagem dialoga diretamente com os conceitos da Escola de Frankfurt: Indústria Cultural e massificação cultural, em que os indivíduos deixam de ser sujeitos críticos e passam a ser espectadores passivos submetidos à lógica do consumo e do mercado.

Alternativa correta: A.

+ Veja também: Instituições sociais: conceito, características, funções e questões de vestibulares

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