A literatura pode contar uma história, expressar sentimentos, criar mundos imaginários ou ainda representar conflitos da sociedade. Por trás de cada poema, romance, conto ou peça de teatro, existem escolhas acerca da linguagem, da estrutura e da forma como uma obra constrói sentidos.
É nesse universo que se desenvolve a teoria literária, campo dedicado ao estudo dos princípios e elementos que constituem a literatura.
Entender esses conceitos nos permite olhar para uma obra com mais atenção e perceber como narradores, personagens, gêneros, enredos e recursos de linguagem participam de sua construção. Continue lendo para compreender os principais conceitos relacionados ao assunto.
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Conceitos fundamentais da teoria literária
A teoria literária reúne conceitos e métodos utilizados para compreender de que forma uma obra literária é construída e quais sentidos ela pode produzir. Seu estudo permite observar elementos como a linguagem, a estrutura, os gêneros e a relação estabelecida entre a obra, seu autor e o contexto em que foi produzida.
Um conceito importante é o de verossimilhança, relacionado à ideia de que os acontecimentos apresentados em uma obra devem ser coerentes com a lógica do universo criado pelo escritor.
Nesse sentido, uma narrativa fantástica pode apresentar acontecimentos impossíveis no mundo real e, ainda assim, ser verossímil quando respeita as regras estabelecidas dentro de sua própria realidade ficcional.
Outro conceito fundamental é o de mimese, associado à representação da realidade pela arte. A literatura pode recriar experiências, comportamentos e conflitos humanos sem precisar reproduzi-los fielmente. Por isso, a relação entre literatura e realidade envolve escolhas de linguagem e diferentes formas de interpretar o mundo.
Gêneros literários: lírico, épico, narrativo e dramático
Os gêneros literários são categorias que ajudam a identificar diferentes formas de construção das obras. Essa classificação surgiu na Antiguidade e passou por transformações ao longo da história, mas continua sendo útil para compreender as características de poemas, narrativas e textos teatrais.
O gênero lírico volta-se para a expressão de sentimentos, pensamentos e experiências subjetivas. O texto costuma apresentar um eu lírico, que manifesta emoções e percepções, sem necessariamente corresponder ao autor. Cecília Meireles é uma referência importante quando o assunto é poesia lírica brasileira, explorando temas como a passagem do tempo e a existência.
O gênero épico surgiu da narrativa de grandes feitos heroicos e acontecimentos ligados à formação de povos. Homero, autor atribuído às epopeias Ilíada e Odisseia, tornou-se uma das principais referências dessa tradição, cuja influência se estenderia para a literatura ocidental.
Já o gênero narrativo apresenta acontecimentos envolvendo personagens, geralmente conduzidos por um narrador. Machado de Assis ocupa lugar de destaque na literatura brasileira por sua produção de romances e contos, nos quais explora diferentes formas de narrar e construir personagens.
Por fim, o gênero dramático é destinado à representação, tendo como elementos centrais a ação, os diálogos, bem como a atuação das personagens. William Shakespeare tornou-se uma referência universal desse gênero com suas obras Hamlet, Romeu e Julieta e Macbeth.
Elementos da narrativa literária
As narrativas literárias são construídas a partir de diferentes elementos que organizam os acontecimentos e orientam a experiência do leitor. Entre os principais estão enredo, narrador, personagens, tempo e espaço, que se articulam para dar forma à história.
O enredo corresponde à sequência de acontecimentos da narrativa e envolve relações de causa e efeito. Dentro dele, podem surgir o conflito, situação que gera tensão entre personagens ou elementos da história, e o clímax, momento de maior intensidade. O desfecho, por sua vez, conduz à resolução do conflito e encerra a narrativa.
O narrador é a voz responsável por contar a história e apresentar determinado ponto de vista, porém, não deve ser confundido com o autor da obra. Pode assumir a primeira pessoa, quando participa dos acontecimentos, ou a terceira pessoa, quando narra a história de uma posição externa. Em ambos os casos, suas escolhas interferem na maneira como o leitor percebe os acontecimentos.
As personagens são os seres ficcionais que participam da narrativa. Já o tempo pode ser cronológico, relacionado à sucessão objetiva dos acontecimentos, ou psicológico, ligado à maneira como as personagens percebem e vivenciam a passagem do tempo. O espaço corresponde ao ambiente onde de fato a ação se desenrola e também pode participar da construção dos sentidos da obra.
Principais correntes de análise
Ao longo do século XX, diferentes correntes passaram a propor novas maneiras de estudar a literatura. Entre elas, o Formalismo Russo e o Estruturalismo ganharam destaque por direcionarem a atenção para a própria construção do texto e para os elementos que organizam seu funcionamento.
O Formalismo Russo defendia que a literatura deveria ser analisada a partir de suas características próprias. Os formalistas investigavam recursos como ritmo, repetição, sonoridade, construção narrativa e escolha das palavras. Ou seja, aspectos mais técnicos.
Um conceito importante dessa corrente é o de literariedade, isto é, aquilo que faz determinado texto funcionar como uma obra literária.
O Estruturalismo, influenciado pelos estudos linguísticos de Ferdinand de Saussure, ganhou notoriedade a partir da década de 1950. Seus estudiosos procuravam identificar as relações entre os diferentes elementos de uma obra, compreendendo o texto como um sistema no qual cada parte adquire sentido em relação às demais.
Seguindo essa lógica, uma narrativa poderia ser analisada a partir das estruturas que organizam personagens, ações, conflitos e outros componentes.
Questão de vestibular sobre o assunto
UFPR (2019)
Segundo Antonio Candido:
Gonçalves Dias é um grande poeta, em parte por encontrar na poesia o veículo natural para a sensação de deslumbramento ante o Novo Mundo […]. O seu verso, incorporando o detalhe pitoresco da vida americana ao ângulo romântico e europeu de visão, criou (verdadeiramente criou) uma convenção poética nova. Esse cocktail de medievismo, idealismo e etnografia fantasiada nos aparece como construção lírica e heroica, de que resulta uma composição nova para sentirmos os velhos temas da poesia ocidental.
(Formação da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Itatiaia (8. ed.) vol. 2, 1975, p. 73.)
Considerando o trecho citado e a leitura integral do livro Últimos Cantos, de Gonçalves Dias, assinale a alternativa correta.
A) A representação dos povos indígenas descreve as tradições coletivas dessas comunidades, mas pode, por vezes, apresentar os sentimentos individuais e particulares de alguns de seus membros.
B) Gonçalves Dias demonstra em sua poesia americana o interesse de se distanciar da tradição indianista, apresentando temas universais, nos quais o gosto pelo exótico e pela tematização do nacional não deveria predominar.
C) A tematização da miscigenação entre índios e brancos é considerada prejudicial, uma vez que apagaria os traços próprios da cultura indígena que deveriam ser preservados.
D) O emprego exclusivo de poemas narrativos longos demonstra que o livro pretende ser uma epopeia que cultua os valores heroicos e descarta a expressão lírica amorosa.
E) A diversidade de temas e de modelos formais se contrapõe ao emprego da mesma medida métrica em todos os poemas.
Resposta
O livro já aponta algumas características da segunda geração romântica tais como o subjetivismo e a melancolia.
Alternativa correta: A
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