Estilística: definição, categorias e exemplos

Estilística: definição, categorias e exemplos

Descubra como a estilística aproveita as infinitas possibilidades da Língua Portuguesa para dar emoção e originalidade ao discurso e saiba como o tema é cobrado no vestibular

Você já reparou que quando um escritor escolhe uma palavra em vez de outra, ou quando altera a ordem natural de uma frase, ele está fazendo escolhas estéticas que vão impactar diretamente na maneira como o leitor interpreta a obra? O estudo dessas escolhas e dos efeitos de sentido que elas provocam é o objeto da estilística.

Compreender esse ramo da linguagem é fundamental para resolver questões de Linguagens no Enem e nos principais vestibulares.

Pensando nisso, o Portal do Estratégia Vestibulares preparou este artigo para você entender melhor o que é a estilística, sua importância e categorias, com a análise prática de textos literários. Confira!

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O que é estilística?

A estilística é o campo da linguística que estuda os recursos expressivos da língua. Enquanto a norma-padrão se preocupa com o que é “certo” ou “errado” de acordo com as regras, a estilística foca no potencial afetivo, estético e sugestivo das palavras.

Ou seja, a estilística analisa como o emissor da mensagem utiliza os elementos linguísticos para conferir emoção, originalidade e persuasão ao discurso, evitando o tom neutro ou imparcial.

Diferença entre gramática e estilística

Nesse sentido, a gramática atua de forma normativa, com o objetivo de estabelecer as regras de estrutura, concordância e regência para que a comunicação seja clara e padronizada. 

De outra maneira, a estilística é descritiva e expressiva. Ela aproveita as possibilidades da própria gramática para criar efeitos de sentido diferenciados, de acordo com a intenção do autor, podendo, inclusive, cometer desvios gramaticais para alcançar a máxima precisão expressiva. 

Denotação e conotação na construção do estilo

Nesse sentido, a base para a liberdade criativa da estilística reside na distinção entre dois conceitos essenciais:

  • Denotação: é a palavra em seu sentido literal, objetivo, como está no dicionário. Essa é a linguagem da ciência, das notícias e dos manuais técnicos. Exemplo: “O coração é um órgão muscular”; 
  • Conotação: é a palavra em seu sentido figurado, subjetivo e contextual. Essa linguagem é muito usada na literatura, na publicidade e no cotidiano, fazendo com que os termos ganhem novos significados. Exemplo: “Você tem um coração de pedra.”

Assim, a estilística atua predominantemente no campo da conotação, transformando o significado literal em múltiplas possibilidades interpretativas.

Categorias da estilística

A estilística é dividida em quatro categorias que estão diretamente associadas às figuras de linguagem:

1. Estilística fônica (figuras de som)

Explora os efeitos sonoros da língua, como o ritmo, a musicalidade, a rima e a repetição de fonemas. Esses elementos podem ser utilizados para sugerir sensações e prender a atenção do leitor.

Aliteração

Consiste na repetição intencional de sons consonantais em palavras próximas, conferindo uma cadência marcante e um ritmo bem definido ao texto.

  • Exemplo: “O rato roeu a roupa do rei…” (sugere ruído do rato roendo).

Assonância

É a repetição harmônica de sons vocálicos (vogais) na mesma frase ou verso. Diferente da aliteração, a assonância costuma trazer maior suavidade e profundidade à leitura. 

  • Exemplo: “Minha foz do Iguaçu/Polo sul, meu azul/Luz do sentimento nu” (Djavan). Note que a repetição da vogal “u” exprime uma marcação rítmica contínua e aveludada à letra.

Onomatopeia 

A onomatopeia é uma figura de linguagem que ocorre quando uma palavra é criada especificamente para imitar um som conhecido no mundo real. Esse recurso tem o poder de fazer o leitor “escutar” a cena apresentada no texto literário, trazendo mais vivacidade para a leitura. 

  • Exemplos de onomatopeias: atchim, bi-bi, cof-cof, tic-tac.
  • Exemplo em frase: “Preso no trânsito, cada ‘bi-bi’ que soava me deixava mais ansioso.”

2. Estilística morfológica

Relaciona-se ao valor expressivo das classes de palavras (substantivos, adjetivos, verbos, numerais, etc.) e de seus processos de formação, especialmente aos sufixos aumentativo e diminutivo.

Por exemplo, o diminutivo raramente indica apenas tamanho físico. Ele costuma conter uma grande carga emocional, como afeto, intimidade, ironia ou depreciação. 

Outro caso é o uso de adjetivos antepostos ao substantivo: “um grande homem” (valor moral) e “um homem grande” (tamanho físico, sentido denotativo).

  • Exemplo: “Vem cá, meu amorzinho” (o sufixo não indica que o amor é pequeno, mas sim que há um sentimento profundo de carinho e proximidade.);
  • De outro modo, o diminutivo em “Aquele doutorzinho achou que sabia tudo” contém um teor de desdém e ironia.

3. Estilística sintática (figuras de sintaxe ou construção)

Diz respeito à organização das palavras na frase, como a quebra da ordem direta da oração, a repetição de termos ou a omissão de conectivos que modificam o ritmo e dão ênfase a determinadas ideias.

  • Hipérbato: inversão da ordem direta da oração. Exemplo: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante” (ordem direta: “As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.”) 
  • Assíndeto: omissão de conectivos, conferindo maior fluidez ao texto. Exemplo: “Vim, vi, venci.” (Em vez de: “Vim, e vi, e venci”.)
  • Polissíndeto: Repetição intencional de conectivos para sugerir continuidade ou acumulação. Exemplo: “E canta, e dança, e chora, e ri.”
  • Elipse: omissão de um termo que pode ser facilmente identificado pelo contexto. Exemplo: “Na mesa, [havia] apenas dois copos.”
  • Anáfora: é a repetição de uma ou mais palavras no início de frases, versos ou períodos seguidos. É um dos recursos mais poderosos para criar ritmo, insistência ou tom solene. Exemplo: é preciso pagar as dívidas,/ é preciso comprar um rádio,/ é preciso esquecer fulana.” (Poema da Necessidade, Carlos Drummond de Andrade).

4. Estilística semântica (figuras de palavras ou semânticas)

Concentra-se nas variações de significado. Estuda como as palavras mudam de sentido conforme o contexto, gerando ambiguidade, ironia, humor ou lirismo através das associações de ideias.

  • Metáfora: comparação implícita, sem o conectivo comparativo (como).
    Exemplo: “A vida é um palco.”
  • Metonímia: substituição de um termo por outro devido a uma relação de proximidade ou dependência. Os casos mais comuns substituem o autor pela obra ou a marca pelo produto. Exemplo: “Li Clarice Lispector na escola” (Li os livros de Clarice Lispector).
  • Sinestesia: explora a fusão de diferentes sentidos humanos (visão, audição, tato, paladar, olfato) em uma mesma expressão. Exemplo: “Seu olhar era doce, mas sua voz era áspera.”
  • Antítese: aproximação de termos com sentidos opostos. Exemplo: “O amor é o fogo que consome, a água que purifica.”
  • Paradoxo (ou Oxímoro): uso de ideias contraditórias em uma mesma afirmação, anulando-se logicamente, mas gerando um sentido profundo. Exemplo: “Estou cego de amor e vejo claro.”
  • Ironia: dizer o contrário do que se pensa, com intenção sarcástica ou humorística. Exemplo: “Que pessoa gentil: pisou no meu pé e não pediu desculpas.”
  • Hipérbole: utiliza-se do exagero intencional para expressar intensidade. Exemplo: “Estou morrendo de fome.”
  • Eufemismo: usado para atenuar uma informação desagradável ou chocante. Exemplo: “Ele partiu desta para a melhor” (morreu).

Exemplos na literatura (análise de obras)

Como foi dito no início deste artigo, a estilística é amplamente aplicada nos textos literários, com o intuito de potencializar a força estética e a carga emocional da mensagem. 

Para elucidar tudo o que foi abordado, vamos analisar como as figuras de linguagem são utilizadas pelos autores para atingir esse objetivo: 

O relógio

“Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado”
(Vinícius de Moraes)

Nos versos acima, de Vinícius de Moraes, repare que a onomatopeia é a figura de linguagem central. O uso recorrente de “tic-tac” não apenas exprime o tradicional som do relógio, mas atribui um ritmo mecânico e constante ao poema.

Além disso, perceba como a omissão de conectivos entre as orações (assíndeto) cria um ritmo fragmentado, acelerado, que mimetiza uma agitação mental de quem aguarda ansiosamente por algo. 

Esses recursos estilísticos também conversam com as frases no imperativo “Não atrasa/Não demora”, que demonstram o desespero do sujeito em comandar o tempo. 

No meio do caminho 

“No meio do caminho tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra.”
(Carlos Drummond de Andrade)

O poema “No meio do caminho” de Drummond é um clássico entre os estudantes. Mas poucos se aprofundam na sua construção estilística genial, a qual reside principalmente na repetição da frase “no meio do caminho” (anáfora).

Essa repetição não é fruto do acaso: a intenção do autor foi criar um ritmo de ciclo vicioso e exprimir a sensação de que o indivíduo está impedido de progredir devido à “pedra no caminho”. Logo, observa-se mais uma figura de linguagem na obra: a metáfora da palavra “pedra” que simboliza os empecilhos da vida real, e não apenas o objeto físico de maneira literal. 

Vamos analisar a estilística de mais um poema: 

Amor é fogo que arde sem se ver

“Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.”
(Luís Vaz de Camões)

Neste célebre quarteto camoniano, a genialidade estilística do soneto reside no uso sistemático de paradoxos e anáforas. Dessa forma, o autor funde conceitos logicamente opostos (como em “contentamento descontente”) para tentar exprimir a natureza contraditória do amor. 

Por outro lado, também notamos a construção de uma estrutura sintática simétrica a partir do uso da anáfora do verbo “é” no início de cada verso. 

Há ainda o uso de metáforas sensoriais: “amor é fogo” / “amor é ferida”, as quais tentam materializar o sentimento em elementos físicos e palpáveis, para que o leitor possa, literalmente, sentir o impacto devastador do amor por meio dos versos.

Como a estilística cai nos vestibulares?

No Enem e nos vestibulares, as bancas abordarão o assunto de forma contextualizada e dificilmente vão exigir apenas a pura memorização e nomenclatura das figuras de linguagem. Portanto, fique atento a estes três pontos:

  1. Interpretação de textos literários e poemas: as questões costumam apresentar poemas ou fragmentos de prosa e questionar qual o efeito de sentido provocado por determinada estrutura estilística. A pergunta clássica não é “Qual é a figura?”, mas sim “De que maneira a repetição de sons contribui para a atmosfera do poema?”. Por isso é importante dominar a análise de textos literários, como foi feito acima;
  2. Textos publicitários e tirinhas: a estilística é a alma da publicidade. Logo, os vestibulares adoram cobrar como metáforas, ambiguidades e ironias são utilizadas em anúncios para convencer o consumidor ou criar humor em tirinhas; 
  3. Relação com variantes linguísticas: compreender o desvio estilístico ajuda a entender que a língua é dinâmica. Às vezes, o que parece um erro gramatical na fala cotidiana é, na verdade, um recurso estilístico intencional na literatura para aproximar o texto da realidade cotidiana.

Questão de vestibular sobre estilística

Unesp (2023)

Examine a tirinha do cartunista Silva João, publicada em sua conta do Instagram em 26.09.2019.

estilistica-questao-vestibular

O efeito de humor da tirinha está centrado na ambiguidade do termo

a) “inspire”.
b) “cheguei”.
c) “bolso”.
d) “acreditei”.
e) “sonho”.

Resposta:

A expressividade do trecho reside na estilística semântica, que explora a polissemia do verbo “inspirar”. O humor e o conflito da cena nascem justamente desse trocadilho, que gera uma ambiguidade entre o ato físico da respiração e o estímulo psicológico de servir de exemplo. 

Alternativa correta: A.

+ Veja também: Sintaxe de concordância: entenda o conceito e as principais regras

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