Concretismo internacional: origem, definição e artistas

Concretismo internacional: origem, definição e artistas

Da ruptura com a subjetividade à precisão matemática: entenda o que foi o Concretismo de Theo van Doesburg e sua relação com a estética do Brasil desenvolvimentista

Enquanto a arte tradicional considera a obra como uma representação da realidade, o Concretismo a propôs a ideia de um objeto autônomo e geométrico como uma realidade em si. 

Para o Enem e os vestibulares, compreender a origem e os pilares do Concretismo e como essa estética se relacionou com o contexto desenvolvimentista do Brasil é essencial para resolver questões de Artes sobre as vanguardas europeias.

Por isso, o Portal Estratégia Vestibulares preparou este resumo para você entender o que foi o Concretismo, suas principais características e influências sobre o Brasil. Confira!

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O que foi o Concretismo?

O Concretismo foi um movimento artístico de vanguarda que surgiu na Europa no século XX, propondo uma ruptura radical com a arte figurativa e a poesia lírica tradicional. 

Nesse sentido, seus artistas defendiam que a obra não deve representar algo externo (como um sentimento, uma paisagem ou um fato social), mas sim valer-se por si mesma como um objeto concreto e real.

O Manifesto da Arte Concreta 

O princípio do movimento está no Manifesto da Arte Concreta, publicado pelo holandês Theo van Doesburg, em 1930. Neste documento, ele estabeleceu as bases de uma arte que pretendia ser puramente intelectual e técnica. A premissa era a de que a arte deveria ser inteiramente concebida pela mente antes da execução, sem influências do subconsciente ou da natureza. 

Em outras palavras, segundo o teórico, uma pintura de uma paisagem, por mais detalhada que seja, é uma ilusão de ótica criada com pigmentos que simulam a profundidade e a luz, mas não existem fisicamente ali (arte figurativa). Por outro lado, um elemento geométrico, a exemplo de um círculo, não representa outra coisa. Ele é a própria realidade da obra (arte concreta).

Desse modo, a frase-chave de Doesburg  para compreender esta visão do concretismo é a seguinte: “Nada é mais concreto, mais real, que uma linha, uma cor, uma superfície.”

Raízes e rupturas do Concretismo

O Concretismo foi o resultado da sistematização de ideias que já circulavam em outras vanguardas europeias no início do século XX, porém radicalizadas sob um rigor lógico que eliminou qualquer resquício de misticismo ou subjetividade.

Influências de Stijl (Neoplasticismo)

O movimento holandês De Stijl, liderado por Piet Mondrian e Doesburg, buscava a redução da arte aos seus elementos essenciais: linhas retas e cores primárias. No entanto, o Concretismo surge de uma divergência técnica. 

Enquanto Mondrian mantinha uma busca por um padrão de harmonia universal, por meio do uso exclusivo de linhas retas horizontais e verticais, Doesburg defendia o uso de diagonais e uma abordagem puramente matemática. Essa divergência de ideias e estética causou o distanciamento entre os dois, pois para Mondrian, as diagonais quebravam o equilíbrio que ele buscava.

A Influência da Bauhaus

O Concretismo herda da Bauhaus a preocupação com o método. No entanto, ele retira qualquer resquício de subjetividade artística. O foco passa a ser a funcionalidade e a estrutura, aproximando o artista da figura do engenheiro ou do designer industrial. Logo, a arte deixa de ser uma “inspiração” e passa a ser um projeto.

Características do Concretismo

Nas artes plásticas

  • Geometria pura: uso exclusivo de formas matemáticas (retas, círculos e quadrados);
  • Cores simples: aplicação de cores primárias e neutras sem graduações ou sombras;
  • Anti-subjetividade: eliminação de sentimentos, enfatizando o objeto real da obra, não uma representação;
  • Acabamento industrial: pinceladas com acabamentos invisíveis, devido à busca pela perfeição técnica e mecânica; e
  • Racionalismo: a composição segue uma lógica matemática ou um planejamento prévio.

Na literatura

  • Verbivocovisual: a palavra é tratada como um elemento físico a serem explorados simultâneamente o significado (verba), o som (voco) e a forma (visual);
  • Abolição do verso: fim da métrica, da rima e da estrutura linear tradicional do poema (versos e estrofes);
  • Sintaxe espacial: o espaço em branco da página é um elemento ativo e significante;
  • Ideograma: a organização das palavras no papel monta um conceito visual. Por exemplo, se o poema fala sobre “velocidade”, as letras podem ser dispostas de forma a criar uma sensação visual de movimento ou aceleração;
  • Substantivação: foco no substantivo e no verbo, com a eliminação de adjetivos e sentimentalismos.

O Concretismo no Brasil

Escola de Ulm de Max Bill

A ponte entre o Concretismo europeu e o brasileiro consolidou-se através da Escola de Ulm (Hochschule für Gestaltung – HfG), fundada na Alemanha em 1953 por Max Bill. Considerada a herdeira direta da Bauhaus, Ulm foi o laboratório onde o pensamento concreto foi sistematizado para o mundo industrial.

Bill também defendia que a arte deveria ser um “objeto real” e não uma representação da natureza. Para ele a arte não era um adorno, mas uma ferramenta para organizar a vida moderna de forma racional e funcional. Essa mentalidade de Ulm chegou ao Brasil no momento exato da nossa expansão industrial e desenvolvimentismo: a Era JK.

Nesse contexto, a I Bienal de São Paulo, em 1951, funcionou como um evento-chave para o Concretismo brasileiro. Na ocasião, o suíço Max Bill foi premiado por sua escultura Unidade Tripartida. A obra, baseada em cálculos matemáticos e na fita de Moebius, funcionou como um catalisador para os artistas brasileiros que buscavam romper com o sentimentalismo do Modernismo anterior, enxergando em Ulm o modelo ideal para integrar a cultura ao progresso técnico do país. 

Efeitos do Concretismo no Brasil

A influência do Concretismo internacional é visível na fundação da ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial) no Rio de Janeiro em 1963, que adotou os padrões de Ulm e consolidou o design moderno brasileiro, focado na clareza visual, no uso de fontes sem serifa (pequenos traços nas extremidades das letras) e na geometria funcional. 

Tudo isso moldou a identidade visual do país, transbordando das galerias para a arquitetura de Brasília e para o design gráfico moderno. O resultado foi a substituição do ornamento pela economia de formas e a adoção de e tipografias modernas.

Artistas e obras principais

Artistas do Concretismo internacional

Além de Max Bill, alguns outros artistas concretos de destaque foram:

  • Piet Mondrian — Série Composição com Vermelho, Amarelo e Azul;
  • Josef Albers — Série Homenagem ao Quadrado (estudo exato da interação das cores e formas geométricas); 
  • Richard Paul Lohse — Pinturas baseadas em Sistemas Modulares e estruturas rítmicas de cores; 
  • Georges Vantongerloo — Escultura Relação de Volumes (aplicação pioneira de equações matemáticas e funções algébricas na escultura);
  • Öyvind Fahlström — Escreveu o primeiro manifesto da poesia concreta em 1953; e
  • Eugen Gomringer — Publicou o livro Constelações, em 1953. É considerado o “pai” da poesia concreta na Europa. 

Artistas do Concretismo nacional

A influência internacional deu origem a alguns grupos de artistas no país com atuação especialmente no campo da literatura e nas artes plásticas.

Na literatura, o marco da poesia concreta brasileira foi a revista Noigandres (1952), a qual tomou o poeta russo Vladimir Maiakóvski como referência. A revista reunia os três principais nomes do movimento: Augusto de Campos e Haroldo de Campos (os “irmãos Campos”) e Décio Pignatari.

Nas artes plásticas, houve dois grupos de destaque:

  • Grupo Ruptura (São Paulo): liderado por Waldemar Cordeiro, que adotou uma postura mais rígida e ortodoxa, eliminando qualquer vestígio de subjetividade; e
  • Grupo Frente (Rio de Janeiro): integrado por Lygia Clark e Hélio Oiticica, o qual permitia uma experimentação mais intuitiva e menos dogmática, embora também partisse da geometria.

O impacto do Concretismo no design e na comunicação visual

A mentalidade concreta transformou a maneira como o mundo moderno é visualizado. Ao priorizar a clareza e a economia de formas, o movimento lançou as bases para o desenvolvimento de fontes, como a Helvética, um subproduto direto da busca suíça por uma letra neutra e de máxima legibilidade. 

Além disso, a simplificação de logotipos para formas geométricas básicas permite que a comunicação seja imediata e eficiente em qualquer escala, um princípio fundamental para a indústria globalizada.

Abstracionismo Lírico X Concretismo

É essencial compreender que estas vertentes representam visões de mundo opostas sobre o papel da arte. Enquanto o Concretismo é a arte da objetividade, que substitui a emoção pelo planejamento rigoroso e traços precisos, o Abstracionismo Lírico foca na subjetividade, na intuição e na expressão completa de sentimentos. 

Ademais, as formas são orgânicas, as cores são misturadas e há um caráter de improviso que busca traduzir a “alma” ou a música em manchas visuais. Um dos expoentes do abstracionismo é o artista russo-alemão Kandinsky.

Como o Concretismo internacional pode ser abordado no vestibular?

Como vestibulando você precisa estar especialmente atento a três pilares que as bancas podem explorar sobre este assunto no contexto de vanguardas europeias:

  • O Manifesto de 1930 e Theo van Doesburg: é necessário saber que o movimento surge como uma evolução do Neoplasticismo, defendendo que a arte deve ser inteiramente concebida pela mente antes da execução técnica;
  • A ruptura com a subjetividade: diferente do Expressionismo ou do Surrealismo, o Concretismo não quer expressar sentimentos nem abordar questões sociais. No vestibular, isso pode aparecer como a busca pela objetividade e pelo uso de formas matemáticas, pois a arte não “representa” nada além dela mesma;
  • Rompimento com a estrutura poética tradicional: extinção da métrica clássica para explorar a palavra em três dimensões (significado, som e imagem), utilizando o espaço vazio da página como elemento organizador do texto; e
  • A Influência de Max Bill: a questão pode abordar o evento propulsor que conectou o design e a escultura europeia ao cenário brasileiro. A chave para esta resposta está na figura de Max Bill, cuja obra une arte, matemática e indústria, servindo de base para o design moderno e para a vanguarda nacional a partir da I Bienal de São Paulo (1951).

+ Veja também: Como estudar Artes para o vestibular e o Enem?
Neoconcretismo no Brasil: geometria, interatividade e Tropicália

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