Patrimônio cultural: conceito, categorias e debates contemporâneos

Patrimônio cultural: conceito, categorias e debates contemporâneos

Entenda melhor as categorias de patrimônio cultural, o papel dos museus e os principais debates sobre decolonialidade e preservação

O patrimônio cultural constitui o conjunto de manifestações materiais e imateriais que fundamentam a memória coletiva e a identidade de um grupo social. 

Para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e os principais vestibulares, compreender os conceitos, os processos de reconhecimento e a função dos órgãos de salvaguarda desse acervo cultural é essencial para a resolução de questões de Ciências Humanas, além de configurar um sólido repertório sociopolítico para a redação.

Pensando nisso, o Portal Estratégia Vestibulares preparou este artigo completo para você compreender as categorias do patrimônio cultural, os marcos regulatórios de sua proteção e as principais discussões contemporâneas acerca do tema. Confira!

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O que é patrimônio cultural?

Patrimônio cultural é tudo aquilo que possui um valor histórico, artístico, científico ou simbólico para a identidade e a memória de um povo. Nesse sentido, ele é herança que recebemos do passado, vivenciamos no presente e transmitimos para as próximas gerações. 

A partir desse patrimônio, é possível conectar os indivíduos ao seu território e à sua identidade, bem como garantir a continuidade da memória coletiva de um povo.

Patrimônio material e imaterial

A legislação do IPHAN e as diretrizes da UNESCO dividem os bens culturais em “material” e “imaterial” que podem ser assim definidos:

  • Patrimônio material: compreende os bens tangíveis, os quais podem ser em imóveis (centros históricos, sítios arqueológicos e edifícios) e móveis (coleções de museus, documentos, manuscritos e obras de arte); e
  • Patrimônio imaterial: abrange as manifestações e expressões culturais dinâmicas de uma comunidade, englobando saberes, receitas, celebrações, danças e línguas. Alguns dos principais bens imateriais do Brasil são o bolo de rolo de Pernambuco, os modos de fazer o queijo minas artesanal e as festas de São João do Nordeste

Como algo se torna patrimônio cultural?

Talvez você se pergunte: “Como se escolhe o que precisa ser preservado?” Para que um bem cultural seja oficialmente reconhecido como patrimônio, ele precisa passar por um processo administrativo e jurídico conduzido pelo Estado (em nível municipal, estadual, federal ou internacional) que ocorre em quatro etapas principais:

1. Pedido inicial: qualquer cidadão ou entidade representativa pode solicitar a proteção de um bem aos órgãos competentes (como o IPHAN);

2. Estudo técnico: em seguida, especialistas realizam pesquisas para avaliar a relevância histórica e o valor simbólico do bem para a comunidade, uma vez que nem tudo o que é antigo é patrimônio, sendo necessário que o bem conte uma parte essencial da história coletiva;

3. Ato de reconhecimento: o bem é oficializado via tombamento (para bens materiais) ou registro (para bens imateriais); e

4. Salvaguarda: após a inscrição nos livros oficiais, o Estado e a comunidade assumem o compromisso de preservar e fomentar o patrimônio.

IPHAN e UNESCO: o que são?

O IPHAN e a UNESCO são os dois principais órgãos responsáveis pela preservação da memória, da história e da cultura, mas eles atuam em escalas diferentes: enquanto o IPHAN cuida do patrimônio dentro do Brasil, a UNESCO coordena a proteção cultural em âmbito mundial.

IPHAN (Brasil)

O IPHAN significa Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. É uma autarquia federal vinculada ao Governo do Brasil (atualmente ligada ao Ministério da Cultura), responsável por realizar o tombamento de bens materiais e o registro de bens imateriais.

A criação do IPHAN remonta à Era Vargas e teve forte influência de intelectuais modernistas, como Mário de Andrade. Na época, o objetivo era parar de imitar a Europa e construir uma identidade nacional, a partir do tombamento do que era autenticamente brasileiro, como a arte barroca mineira. 

UNESCO (Mundial)

A UNESCO é a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Trata-se de uma agência especializada da ONU (Organização das Nações Unidas), fundada em 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, com sede em Paris, França.

Nesse sentido, a UNESCO atua concedendo o título de Patrimônio da Humanidade (ou Patrimônio Mundial) para monumentos, cidades, paisagens naturais ou manifestações que possuem um “valor universal excepcional”, cuja perda seria um prejuízo para toda a humanidade, e não apenas para o país onde o bem está localizado.

Alguns exemplos de patrimônios da humanidade são: as Pirâmides do Egito, a Grande Muralha da China, o Centro Histórico de Roma e o Cristo Redentor.

O papel do museu na preservação do patrimônio cultural

Para muita gente, a palavra “museu” ainda traz à mente a imagem de um prédio imponente e silencioso, com artefatos antigos expostos. Porém, esse conceito mudou profundamente nos últimos tempos e, para entender o papel do museu como uma instituição de salvaguarda na contemporaneidade, vale a pena olhar para a definição mais recente da UNESCO:

 “Um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade, que pesquisa, coleciona, conserva, interpreta e expõe patrimônio material e imaterial. Abertos ao público, acessíveis e inclusivos, os museus promovem a diversidade e a sustentabilidade…”

Na prática, isso significa que o museu moderno deixou de ser um mero depósito do passado para funcionar como um espaço vivo, público e acessível, que comunica a memória material e imaterial da humanidade. A partir disso, ele serve como instrumento de reflexão crítica e transformação social na comunidade que o cerca.

A evolução histórica dos museus na preservação do patrimônio cultural

Esse caráter mais ativo e inclusivo dos museus é resultado de uma longa transformação na forma como a sociedade lida com o seu próprio patrimônio. Para compreendermos como o museu deixou de ser um mero “depósito de antiguidades”, é preciso analisar sua evolução histórica, desde os “gabinetes de curiosidades” até o modelo contemporâneo:

O museu tradicional

A origem dos museus modernos que conhecemos hoje remonta aos chamados “gabinetes de curiosidades” dos períodos renascentista e barroco (sécs. XVI – XVIII). Esses gabinetes eram coleções privadas mantidas por monarcas, aristocratas e eruditos europeus.

Nesse período, exibir a posse de objetos raros, obras de arte e artefatos arqueológicos funcionava como demonstração de erudição, riqueza e poder geopolítico das potências coloniais.

Após movimentos iluministas, essas coleções tornaram-se abertas ao público, embora ainda mantivessem um caráter voltado às elites, evidenciado pela exigência de códigos de vestimenta e outras barreiras socioeconômicas. Um notável exemplo de acervo privado que se tornou um museu público após a Revolução Francesa é o Palácio do Louvre

O museu contemporâneo 

A grande virada de chave aconteceu no século XX, consolidando-se no século XXI através da Museologia Social, pois o foco deixou de ser o objeto guardado e passou a ser o cidadão que o visita. 

Logo, os museus contemporâneos buscam não somente expor, mas também estimular a reflexão crítica, o entretenimento instrutivo e o questionamento sobre o próprio acervo exposto.

O exemplo do MASP

Um exemplo de museu que atende a esse novo conceito é o Museu de Arte de São Paulo (MASP), projetado por Lina Bo Bardi e inaugurado na Avenida Paulista em 1968. Isso porque o edifício apresenta conceitos de abertura e redimensionamento do espaço expositivo por meio de duas inovações estruturais:

  • O vão livre: o edifício foi estruturado sobre quatro pilares de concreto, gerando um vão de 74 metros de extensão, que preserva a vista para o centro da cidade e configura-se como uma praça pública integrada à dinâmica urbana. Nesse espaço podem ser observadas feiras, manifestações e eventos culturais; e
  • Os cavaletes de vidro: no interior, as paredes e divisórias tradicionais foram substituídas por lâminas de vidro temperado fixadas em blocos de concreto. Devido a isso, a dinâmica da visitação foi alterada, permitindo que o público tenha maior aproximação visual e liberdade para estabelecer como quer circular entre as obras expostas.

Essa compreensão da trajetória dos museus é um tópico que pode ser abordado nos vestibulares, pois dialoga diretamente com as transformações sociológicas, urbanísticas e conceituais do direito à cultura

Debates contemporâneos sobre a conservação do patrimônio cultural

Por fim, as discussões contemporâneas acerca do patrimônio cultural que podem ser abordadas nas provas de Ciências Humanas ou na redação concentram-se em dois eixos principais: as disputas geopolíticas por acervos históricos (decolonialidade) e a eficácia das políticas públicas de preservação material. 

Decolonialidade e repatriação de acervos

A acumulação de grandes acervos em museus europeus remonta ao período colonial, quando a posse de artefatos arqueológicos e obras de arte funcionava como demonstração de poder geopolítico sobre os territórios dominados. 

Atualmente, esse legado histórico centraliza um complexo debate que opõe as demandas por restituição das nações de origem à argumentação de salvaguarda dos chamados museus universais.

Soberania cultural das nações X salvaguarda dos museus universais

Nesse sentido, para os países da África, Ásia e América Latina, a demanda pela devolução desses artefatos fundamenta-se na denúncia de uma assimetria histórica, visto que a aquisição de muitos bens ocorreu sob coerção, saques de guerra ou expedições punitivas. Exemplos notáveis disso são a pilhagem dos Bronzes do Benin, saqueada pelo exército britânico em 1897, e a Pedra de Roseta, ambas abrigadas no Museu Britânico.

Para os defensores da repatriação, a devolução de objetos sagrados ou arqueológicos é indispensável para o exercício da soberania e a reconstrução da memória coletiva dessas nações.

Em contrapartida, as instituições reconhecidas como “museus universais” (o  Museu Britânico e o Museu do Louvre, por exemplo) defendem a manutenção de seus acervos com base no conceito de patrimônio global

Essas instituições alegam que centralizar as peças facilita o acesso público internacional e viabiliza pesquisas transculturais. Além disso, invoca-se a “salvaguarda técnica”, argumentando que a infraestrutura europeia garantiu a integridade física de itens que corriam riscos em cenários de instabilidade política regional. Há, ainda, barreiras jurídicas de inalienabilidade, legislações nacionais que proíbem museus estatais de se desfazerem de seus acervos permanentes.

Possíveis soluções 

Para mediar este impasse, a Convenção da UNESCO de 1970 estabeleceu parâmetros que coíbem novas transferências ilícitas, apesar de não retroagir ao período colonial. 

Algumas medidas diplomáticas também têm sido adotadas, como parcerias de empréstimos de longo prazo ou devoluções definitivas via acordos bilaterais, a exemplo da repatriação dos Bronzes de Benin para a Nigéria feita pela Alemanha, em 2022. 

Falhas na preservação do patrimônio cultural e riscos à memória nacional

No cenário brasileiro, a discussão gira em torno da vulnerabilidade estrutural das instituições de custódia. O incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018, ilustra bem esse problema, uma vez que evidenciou falhas no financiamento contínuo, na manutenção preventiva e na execução de políticas de segurança de acervos.

Sob a ótica sociológica, a destruição de um patrimônio que abrigava coleções científicas, etnográficas e arqueológicas singulares equivale ao apagamento de registros da memória coletiva. Esse rompimento do vínculo físico com o passado fragiliza a construção identitária nacional e compromete a autonomia crítica da sociedade sobre a sua própria trajetória histórica.

+ Veja também: Globalização: o que é, origem, contexto histórico e importância

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