Além de ser entretenimento, o cinema é um documento que reflete as características culturais e sociais de uma época. No Brasil, essa relação entre tela e realidade foi muito evidente em dois grandes movimentos da história do cinema nacional: o Cinema Marginal, surgido no final dos anos 1960, e o Cinema de Retomada, que emergiu nos anos 1990.
Esses dois movimentos nasceram de crises profundas, sendo uma política e a outra econômica, e ambos responderam a essas crises com soluções radicalmente diferentes. Dessa maneira, tais assuntos podem ser cobrados de forma interdisciplinar no Enem e nos vestibulares, sendo contextualizados no seu período histórico.
Leia este texto para entender melhor sobre o Cinema Marginal e o Cinema de Retomada, e compreender como o cinema dialoga com a história do Brasil.
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Cinema Marginal (final dos anos 60 e anos 70)
Contexto histórico do Cinema Marginal
Em dezembro de 1968, o regime militar brasileiro decretou o Ato Institucional número 5, o AI-5. O ato suspendeu direitos políticos, fechou o Congresso e instaurou a censura sistemática sobre a produção cultural.
Para o cinema, o impacto foi devastador, pois o Cinema Novo, movimento encabeçado por Glauber Rocha que buscava retratar a realidade brasileira com olhar crítico e poético, encontrou seus limites diante da repressão e do próprio esgotamento estético.
Foi nesse sufocamento que nasceu o Cinema Marginal. Enquanto o Cinema Novo propunha uma “estética da fome”, filmando a miséria com dignidade e denúncia, o Cinema Marginal jogou tudo isso fora. Não havia espaço para discurso didático num país que prendia e torturava. A resposta foi o deboche, o caos e a provocação.
A estética do lixo
O conceito central do Cinema Marginal é a chamada “estética do lixo”: personagens às margens da sociedade, narrativas sem linearidade, violência crua, humor negro e uma estética deliberadamente suja e experimental. Era uma forma de dizer que, numa ditadura, o cinema limpo e bem-comportado seria uma mentira. Filmar o lixo era o único ato honesto possível.
Principais características e obras do Cinema Marginal
Com orçamentos mínimos e liberdade total de forma, o Cinema Marginal produziu obras que ainda hoje causam desconforto, e é exatamente esse desconforto o objetivo. Os principais nomes são:
- O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, é considerado o manifesto do movimento. O filme retrata um criminoso caricato enquanto satiriza a televisão, a política e os próprios filmes de gângster. É um delírio visual sobre o Brasil.
- Matou a Família e foi ao Cinema (1969), de Julio Bressane, cujo título já é uma declaração de intenções. A obra explode qualquer expectativa narrativa e confronta o espectador com imagens de extrema violência e estranheza.
Nesse sentido, esses filmes circulavam principalmente pelos cinemas da Boca do Lixo, região central de São Paulo que se tornou o polo de produção do cinema independente nacional, e que deu nome à própria estética do movimento.
Cinema de Retomada (anos 90 até início dos anos 2000)
O vazio dos anos Collor
Em 1990, como parte de um pacote de ajuste econômico, o presidente Fernando Collor extinguiu a Embrafilme, estatal responsável por financiar e distribuir o cinema nacional. Da noite para o dia, a produção de filmes brasileiros desabou para praticamente zero. Entre 1990 e 1992, o Brasil produziu menos de uma dezena de longa-metragens.
A Lei do Audiovisual
A virada começou em 1993, com a Lei do Audiovisual, que criou mecanismos de incentivo fiscal para a produção cinematográfica. Empresas poderiam abater do imposto de renda os valores investidos em projetos nacionais. O resultado foi um renascimento lento, mas consistente, e com uma preocupação de falar com o grande público, diferentemente do Cinema Marginal.
A estética da retomada
O Cinema de Retomada chegou com imagem nítida, som profissional e história bem estruturada. Era um cinema que queria ser visto, e que via no espectador brasileiro alguém que precisava ser reconquistado. As temáticas giravam em torno de perguntas fundamentais sobre o Brasil:
- O Sertão e a identidade nacional: Central do Brasil (1998), de Walter Salles, conta a jornada de uma senhora e um menino pelo interior do Nordeste em busca do pai. O filme foi indicado ao Oscar e colocou o cinema brasileiro de volta no mapa internacional;
- A violência urbana: Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, retratou com realismo brutal o crescimento do tráfico nas favelas cariocas. O impacto estético e social foi imediato; e
- A revisão histórica: Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), de Carla Camurati, revisitou com humor e ironia a chegada da família real ao Brasil, e foi um dos primeiros grandes sucessos de bilheteria da retomada.
Veja mais:
+Cinema brasileiro: fases, principais obras e importância histórica
Análise comparativa para o vestibular
A diferença essencial entre os dois movimentos pode ser resumida em uma oposição: ruptura e institucionalização.
O Cinema Marginal fugia do mercado, das normas e do público de massa. Era cinema de guerrilha cultural, sobrevivia apesar do Estado, e muitas vezes por causa da resistência a ele. A censura era o inimigo, e o deboche era a arma.
O Cinema de Retomada, por outro lado, nasceu dentro das políticas públicas. O Estado, que antes censurava, agora financiava, e isso moldou um cinema mais profissional, mais acessível e, inevitavelmente, mais comprometido com o mercado. Isso revela como a arte sempre responde ao contexto em que está inserida.
Como o cinema marginal e o de retomada caem no Enem?
O Enem costuma cruzar linguagens. Ao apresentar um trecho de filme ou uma imagem de cena, a prova pode perguntar sobre intertextualidade. Questões de análise de linguagem pedem que o aluno interprete escolhas técnicas: uma câmera na mão instável transmite urgência e realismo, a edição acelerada de Cidade de Deus imita o ritmo frenético da violência.
A representação do Brasil para o exterior, tema de identidade nacional, aparece quando filmes como Central do Brasil são indicados ao Oscar e o mundo passa a conhecer o Brasil através deles.
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