Naturalismo: o que é, características, obras e autores

Naturalismo: o que é, características, obras e autores

O movimento literário conhecido como Naturalismo é uma grande representação da união entre a ciência e as artes. Pautados nas teorias darwinianas, os autores e artistas desenvolveram obras impressionantes, como veremos no decorrer deste texto.

Continue lendo e entenda melhor o surgimento do naturalismo e suas características. Conheça também as principais obras de Eça de Queirós, Raul Pompéia e Aluísio Azevedo, os mais notáveis artistas do estilo. Vamos lá?

Surgimento do naturalismo

O Naturalismo é uma escola literária relativamente recente, que surgiu durante o século XIX. Como você viu acima, o ponto de partida foi a publicação de obras darwinianas que apontavam o determinismo biológico. 

Nas publicações de Charles Darwin, foram pontuadas a evolução das espécies e a seleção natural. A grande questão é que, as teorias darwinianas colocaram em dúvida toda a base social anterior, quando acreditava-se na distinção dos seres humanos perante os outros animais. 

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A partir de então, os autores naturalistas passaram a entender o homem como qualquer outra espécie animal, que está sob a ação de processos evolutivos e não tem nenhuma característica divina ou “superior”.

Com base nessa visão, muitos estudiosos começaram a propor uma ideia de “darwinismo social”.  Essa ideia propunha algumas etnias mais evoluídas do que outras — esse ponto foi utilizado para realizar o imperialismo em outras nações (por todo o continente africano, principalmente), além de ser um dos princípios do racismo estrutural.

Além de toda essa mistura de ideias científicas e sociais, a racionalidade científica e a mentalidade humana eram cada vez mais valorizadas. 

Foi nesse contexto que surgiu o naturalismo, que pautou suas obras na ideia de que o ambiente social, a fase da vida e o momento histórico são capazes de determinar o comportamento dos indivíduos.

Características do naturalismo

  • O naturalismo molda o comportamento e personalidade dos personagens conforme a etnia, local de moradia e nascimento e movimento histórico;
  • As motivações biológicas para as ações tornam-se evidentes, principalmente em termos de impulsos sexuais;
  • Os instintos animais são amplamente utilizados pelos protagonistas, inclusive, percebe-se uma desumanização das personalidades;
  • A zoomorfização, quando o homem assume características e atitudes próprias de animais, é muito utilizada;
  • Figuras negras, mulheres e não-heterossexuais são retratadas em termos pejorativos — algo que, atualmente, seria considerado preconceituoso;
  • Os humanos são encarados como produto dos acontecimentos naturais e suas leis; e
  • Os temas abordados são essencialmente cotidianos e abordam classes sociais menos abastadas.

Principais autores e obras do naturalismo

Eça de Queirós

Representante do naturalismo português, Eça de Queirós iniciou sua carreira na escola literária com a obra “O Crime do Padre Amaro”, que também é seu texto de maior destaque.

Nesse enredo, são abordadas diversas hipocrisias sociais: um padre que se apaixona por uma garota e cede aos desejos carnais e um adultério nas famílias clássicas da sociedade do livro. 

É importante ressaltar que, como propõe o naturalismo, o meio está corrompido e participa da corrupção dos personagens — uma grande representação do determinismo social. Além disso, a construção das ideias traz críticas sociais importantes contra a sociedade eclesiástica e formalidades.

Acompanhe um trecho do livro:

“Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora duas vezes, de modo que as suas visitas caridosas à paralítica perfizessem ao fim do mês o número simbólico de sete, que devia corresponder, na idéia das devotas, às Sete Lições de Maria. Na véspera o padre Amaro tinha prevenido o tio Esguelhas, que deixava a porta da rua apenas cerrada, depois de ter varrido toda a casa e preparado o quarto para a prática do senhor pároco. Amélia nesses dias erguiase cedo; tinha sempre alguma saia branca a engomar, algum laçarote a compor; a mãe estranhava-lhe aqueles arrebiques, o desperdício de água-de-colônia de que ela se inundava; mas Amélia explicava que “era para inspirar à Totó idéias de asseio e de frescura”. E depois de vestida sentava-se, esperando as onze horas, muito séria, respondendo distraidamente às conversas da mãe, com uma cor nas faces, os olhos cravados nos ponteiros do relógio: enfim a velha matraca gemia cavamente as onze horas, e ela, depois de uma olhadela ao espelho, saía, dando uma beijoca à mamã.”

Aluísio Azevedo

Do outro lado do Atlântico, no Brasil, o escritor Aluísio Azevedo desenvolveu grandes obras naturalistas, como “O Cortiço” e “O Mulato”.

O autor foi muito inovador para a época em que vivia: abordou questões raciais, quando questiona as bases sociais e rejeição sofridas pelos pretos devido a sua cor de pele: “O Mulato” retrata a história de um filho de escrava que se forma em Portugal e deseja casar com uma brasileira, mas tem seu pedido negado, simplesmente por ser mulato.

O outro livro, “O Cortiço”, é muito famoso e já esteve na lista obrigatória da Fuvest. O enredo se passa em um cortiço no subúrbio carioca, onde ocorre muita violência, sexualidade marcante, alcoolismo maciço, vícios e crimes de diversas ordens. 

O cortiço é representado, ainda, como um animal que molda o viver dos seus habitantes — o meio corrompido e que corrompe, característica própria da estética naturalista. Veja no trecho abaixo: 

“Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.”

Raul Pompéia

Também nas listas de obras que já caíram em vestibulares nacionais, Raul Pompéia foi o escritor de “O Ateneu”. Aqui, o contexto corruptor é uma escola, em que ocorrem diversos episódios de violência, instintos sexuais elevados e incitação ao erro. 

“A irradiação da réclame alongava de tal modo os tentáculos através do país, que não havia família de dinheiro, enriquecida pela setentrional borracha ou pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de honra com a posteridade doméstica: mandar dentre seus jovens, um, dois, três representantes abeberar-se à fonte espiritual do Ateneu.

Fiados nesta seleção apuradora, que é comum o erro sensato de julgar melhores famílias as mais ricas, sucedia que muitas, indiferentes mesmo e sorrindo do estardalhaço da fama, lá mandavam os filhos. Assim entrei eu.”

Naturalismo e realismo

Tanto o realismo como o naturalismo buscam aproximar-se da realidade, com o retrato de questões cotidianas, com todas as suas nuances corretas ou não. As ironias e hipocrisias sociais são expostas em ambos os movimentos.

De toda forma, o naturalismo realiza essa exposição de maneira mais explícita, com palavras mais diretas e maior características animalescas para os personagens. Os realistas são mais comedidos e mergulham no mundo psicológico para entender a motivação das atitudes, como acontece em Memórias Póstumas de Brás Cubas, escrito por Machado de Assis.

Questão de vestibular sobre naturalismo

(UFPA — Universidade Federal do Pará) Os personagens realistas-naturalistas têm seus destinos marcados pelo determinismo. Identifica-se esse determinismo:

a) pela preocupação dos autores em criar personagens perfeitos, sem defeitos físicos ou morais.

b) pelas forças atávicas e/ou sociais que condicionam a conduta dessas criaturas.

c) por ser fruto, especificamente, da imaginação e da fantasia dos autores.

d) por se notar a preocupação dos autores de voltarem para o passado ou para o futuro ao criarem seus personagens.

e) por representarem a tentativa dos autores nacionais de reabilitar uma faculdade perdida do homem: o senso do mistério.

A perfeição das personalidades não aparece nesses textos, porque as obras tendem para uma transmissão mais “pura” da realidade, o que também foge “da imaginação e da fantasia”. A temporalidade pode ser um importante tópico nas narrativas, mas o determinismo não depende dela para aparecer, assim como o senso do mistério. 

Então, o determinismo aparece nos textos naturalistas quando os personagens são moldados conforme o contexto social em que estão inseridos, como aponta corretamente a alternativa B.

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