Poemas de forma fixa: o que são, tipos e exemplos; entenda como funciona

Poemas de forma fixa: o que são, tipos e exemplos; entenda como funciona

Entenda o conceito de poemas de forma fixa e veja como a estrutura poética dialoga com o contexto literário

Ao longo da história literária, muitos dos maiores poetas da humanidade produziram poemas sob regras rígidas de contagem de sílabas, esquemas de rimas e número exato de versos. 

Compreender esse universo dos poemas de forma fixa é crucial para o Enem e vestibulares, pois as bancas podem explorar como a estrutura poética dialoga com o contexto literário e a mensagem transmitida.

Pensando nisso, o Portal do Estratégia Vestibulares preparou este artigo para você entender melhor os principais tipos de poemas de forma fixa, com exemplos práticos dessas obras. Confira!

Pacote Vestibulares Platinum

Conheça nosso curso

O que são poemas de forma fixa?

Pertencentes ao gênero lírico, os poemas de forma fixa obedecem a uma estrutura métrica e visual previamente estabelecida. Isso significa que eles seguem regras rígidas de composição, determinando elementos específicos: a quantidade exata de estrofes, o número fixo de versos em cada uma delas, a contagem de sílabas poéticas e a disposição das rimas.

Logo, o poeta precisa fazer sua mensagem caber perfeitamente dentro de uma fôrma preexistente, sem que isso comprometa a beleza ou o lirismo da mensagem. 

Versos livres X forma fixa

Até o final do século XIX, a forma fixa e os versos metrificados dominavam a produção poética ocidental. Contudo, com a chegada do Modernismo, a liberdade estética passou a ser valorizada. Para entender a diferença prática, é preciso esclarecer alguns os conceitos fundamentais:

  • Forma fixa: exige rigor geométrico. As rimas seguem padrões rígidos (como ABBA ou ABAB), os versos mantêm a mesma métrica (geralmente decassílabos ou alexandrinos) e a estrutura final obedece a moldes históricos bem delineados; e
  • Versos livres (ou irregulares): os versos livres (ou irregulares) são aqueles que não seguem uma métrica regular, ou seja, não têm um número de sílabas poéticas fixo; e
  • Versos brancos: já os versos brancos são aqueles que não apresentam rimas poéticas, mas possuem métrica regular.

Vale destacar que um poema pode conter versos livres e brancos simultaneamente, com o intuito de dar total liberdade ao ritmo natural da fala e à disposição das ideias.

Soneto

O soneto é a mais famosa e duradoura das formas fixas e pode ser observada em vários poemas ao longo da história literária. Esta forma surgiu na Itália durante a Idade Média e consiste em um poema composto por 14 versos. Ao longo da história, ele se dividiu em dois tipos principais:

Soneto italiano ou petrarquiano

Popularizado pelo poeta Francesco Petrarca no século XIV, o soneto italiano possui uma distribuição estrutural clássica: dois quartetos (estrofes de quatro versos) seguidos por dois tercetos (estrofes de três versos).

O esquema de rimas mais tradicional nos quartetos é o interpolado (ABBA ABBA), enquanto os tercetos oferecem maior flexibilidade ao autor, podendo seguir padrões como CDECDE ou CDCDCD. 

No soneto petrarquiano, o desenvolvimento do raciocínio costuma ser progressivo: os quartetos apresentam e desenvolvem o tema, o primeiro terceto aprofunda a reflexão e o terceto final traz a conclusão, muitas vezes apresentando um verso final de grande força expressiva.

Leia, a seguir, um clássico exemplo de soneto petrarquiano por Luís Vaz de Camões:

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor.

Soneto inglês ou shakespeariano

Desenvolvido na Inglaterra e consagrado por William Shakespeare, essa variação apresenta uma organização interna bem distinta da italiana. O soneto inglês é estruturado em três quartetos e um dístico (estrofe de apenas dois versos).

O esquema de rimas típico é o alternado (ABAB CDCD EFEF GG). Essa disposição altera o ritmo e o desenvolvimento do pensamento do poema: o poeta tem os doze primeiro versos para desenvolver a ideia central do poema e os dois últimos versos para concluir todo o dilema.

Exemplo de soneto shakespeariano:

Soneto 18

Como hei de comparar-te a um dia de verão?
És muito mais amável e mais amena:
Os ventos sopram os doces botões de maio,
E o verão finda antes que possamos começá-lo;
Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,
Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;
E tudo que é belo um dia acaba,
Seja pelo acaso ou por sua natureza;
Mas teu eterno verão jamais se extingue,
Nem perde o frescor que só tu possuis;
Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,
Quando os versos te elevarem à eternidade:
Enquanto a humanidade puder respirar e ver,
Viverá meu canto, e ele te fará viver. 

O soneto nos movimentos literários

O soneto esteve presente em vários movimentos literários, mudando apenas a sua temática:

  • Classicismo (Renascimento): considerada a era de ouro do soneto. Poetas como Luís de Camões consolidaram o modelo petrarquiano com versos decassílabos para cantar o amor platônico, o neoplatonismo e os conflitos existenciais; 
  • Barroco: o soneto apresenta-se repleto de antíteses, paradoxos e dualidades (como o conflito entre a carne e o espírito). Neste período, destaca-se Gregório de Matos no Brasil;
  • Arcadismo (Neoclassicismo): momento da retomada da simplicidade pastoral e dos ideais clássicos. O formato do soneto seguiu rígido, mas com temas voltados à natureza e ao desapego urbano. Entre os árcades destacam-se os poetas Cláudio Manuel da Costa e Bocage; e
  • Parnasianismo: no final do século XIX, o soneto era a forma que representava o ápice da “arte pela arte”. Nesses poemas, havia rimas raras e metrificação perfeita, como nos versos alexandrinos de Olavo Bilac.

Quadra e trova

A quadra é uma forma fixa de estrofe única composta por quatro versos, mas que pode ser parte de um poema maior, não precisando contemplar totalmente a ideia central do poema nos quatro versos.

Enquanto a trova, embora também seja conhecida como “quadra” , é uma forma popular e folclórica da língua portuguesa que possui outros requisitos estruturais:

  • os versos devem ser obrigatoriamente heptassílabos;
  • devem apresentar rimas nos versos pares (ABAB ou ABCB); e
  • tem seu sentido completo nos quatro versos que a compõem, não admitindo mais versos para complementá-lo.

Historicamente, essa estrutura nasceu na Península Ibérica durante o Trovadorismo (Idade Média), servindo de base para as cantigas de líricas (de amor e de amigo) e satíricas (de escárnio e de maldizer), que eram inicialmente feitas para serem cantadas. 

Séculos mais tarde, já no século XX, esse formato foi resgatado pela 1ª e 2ª Geração do Modernismo por autores que buscavam a oralidade e a simplicidade popular, além de ter se consolidado definitivamente como a estrutura base da Literatura de Cordel no Nordeste brasileiro. 

Exemplo de trova:

Dentro da noite

O amor que a teu lado levas
a que lugar te conduz,
que entras coberto de trevas
e sais coberto de luz?

(Olavo Bilac)

Haicai

Originário do Japão, o haicai é uma forma poética extremamente concisa que busca capturar a essência de um instante, quase sempre focado na natureza ou na passagem das estações do ano.

Tradicionalmente, o haicai é composto por apenas três versos (um terceto) sem rimas, que totalizam exatamente 17 sílabas poéticas distribuídas na seguinte ordem:

  • 1º verso – 5 sílabas (pentassílabo)
  • 2º verso – 7 sílabas (heptassílabo)
  • 3º verso – 5 sílabas (pentassílabo)

Exemplo de haicai japonês:

O velho lago,
Um sapo mergulha,
O som da água. 

(Matsuo Bashô)

No Brasil, o haicai foi principalmente adotado por poetas modernistas e contemporâneos, como Guilherme de Almeida, Paulo Leminski e Alice Ruiz, que muitas vezes adicionaram rimas e temas urbanos à fórmula original.

Veja um exemplo de haicai brasileiro com estrutura adaptada: 

Infância

Um gosto de amora
Comida com sol. A vida
Chamava-se: “Agora”.

(Guilherme de Almeida)

Sextina

A sextina é composta por seis estrofes de seis versos (sextilhas) e uma estrofe final de três versos (chamada de terno ou oferta). Essa estrutura não depende de rimas para criar musicalidade, mas da repetição sistemática de palavras-chave.

Esta forma foi criada pelo trovador francês Arnaut Daniel, no século XII, e foi adotada e refinada por grandes nomes como Petrarca (Itália) e Camões (Portugal). 

A sextina é considerada por muitos teóricos como uma das formas mais difíceis de se produzir e, por isso, servia como uma demonstração de virtuosismo e erudição técnica do poeta.

Para entender melhor, leia este fragmento de uma sextina escrita por Camões: 

Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por acaso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de entre os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Pois nunca uma hora viu tão longa vida
Em que posso do mal mover-se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Pera que choro, enfim? Pera que falo,
Se lograr-me não pude de meus olhos?

[...]

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos, e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.

Balada

A balada foi uma forma muito popular na Idade Média, especialmente na França, com os poetas François Villon e Guillaume de Machaut.  

A balada clássica é um poema narrativo composto por três estrofes longas com o mesmo número de versos (normalmente de oito versos cada), seguidas por uma estrofe de encerramento mais curta (com quatro versos ou cinco). 

Trecho de uma balada escrita por François Villon:

Balada das damas dos tempos idos
Dizei-me em que terra ou país
Está Flora, a bela romana;
Onde Arquipíada ou Taís,
que foi sua prima germana;
Eco, a imitar na água que mana
de rio ou lago, a voz que a aflora,
E de beleza sobre-humana?
Mas onde estais, neves de outrora?

[...]

Príncipe, vede, o caso é urgente:
Onde estão elas, vede-o agora;
Que este refrão guardeis em mente:
Onde estão as neves de outrora? 

Rondó

O rondó é uma forma fixa de origem francesa que se destaca pela presença marcante de refrões e repetições de versos inteiros, que criam um efeito sonoro circular e repetitivo.

Essa repetição tem uma função estética, em que a temática é constantemente reiterada para o leitor e pode estar presente em diferentes posições dentro do poema, como no início e ao fim das estrofes.

Nesse sentido, o rondó é dividido em alguns subtipos:

  • Rondó francês: a estrutura clássica possui 13 versos distribuídos em três estrofes (uma de cinco versos, uma de três e outra de cinco). As primeiras palavras do primeiro verso são repetidas obrigatoriamente no final da segunda e da terceira estrofes, funcionando como um eco temático;
  • Rondó dobrado: é uma variação mais complexa e extensa, na qual o poema possui quatro quadras e uma estrofe final de cinco versos. Cada um dos quatro versos da primeira estrofe deve reaparecer, sucessivamente, como o último verso das estrofes seguintes; e
  • Rondó simples: é uma simplificação da estrutura do rondó francês, mantendo a ideia do refrão repetido no meio e no fim do poema, mas com um esquema de rimas menos rígidas, facilitando a construção lírica.

Um exemplo do rondó francês aparece no poema “Volta”, de Manuel Bandeira. Leia um trecho:

“Enfim te vejo. Enfim no teu
Repousa o meu olhar cansado.
Quando o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado!

Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!
[...]"

Outras formas fixas

Além das formas mais consagradas que foram apresentadas, existem outras estruturas híbridas e variações históricas que fazem parte do repertório poético:

Vilancete

O vilancete inicia com uma estrofe curta chamada mote que apresenta o tema, de dois a três versos. Na sequência, vêm as estrofes longas, chamadas voltas ou glosas, que desenvolvem a ideia e obrigatoriamente recuperam as rimas ou os versos do mote original. Esta também é uma forma tipicamente ibérica que dominou a transição da Idade Média para o Renascimento

Pantum

De origem malaia e adaptado pelos poetas franceses, o pantum é composto por quadras encadeadas. O segundo e o quarto versos de uma estrofe tornam-se, obrigatoriamente, o primeiro e o terceiro versos da estrofe seguinte. O poema se fecha quando o verso final recupera a primeira linha de todo o texto, encerrando o ciclo.

+ Veja também: Madrigal: definição, características e exemplos

Estude com o Estratégia!

Gostou desse conteúdo? Então venha conquistar sua aprovação com o Estratégia Vestibulares! Descubra uma plataforma que oferece um suporte completo, personalizado e eficiente para o vestibular.

Estude no seu ritmo, no formato que preferir (videoaulas, resumos, simulados e questões inéditas) e de onde estiver com nossos Livros Digitais Interativos (LDI). Clique no banner e prepare-se com o EV!

CTA - Estratégia Vestibulares 4

Você pode gostar também
conceito, estrutura e uso da Décima
Leia mais

Décima: conceito, estrutura e uso

Você sabe o que é uma décima? Neste artigo, você entenderá sua composição, suas principais características e as origens dessa forma poética