No início do século XX, o mundo parecia girar mais rápido do que a capacidade humana de processar as mudanças: máquinas, indústrias, ferrovias, a eletricidade e, logo em seguida, o acontecimento de uma guerra mundial redefiniram completamente a experiência humana. É nesse cenário dinâmico que surgem as Vanguardas Europeias.
Compreender as vanguardas europeias é crucial para o Enem e vestibulares, pois as bancas podem explorar desde a identificação das características de cada movimento até a análise do seu impacto na literatura e na arte brasileira.
Pensando nisso, o Portal do Estratégia Vestibulares preparou este artigo para você entender melhor as origens, as principais vertentes e os pontos-chave de cada vanguarda. Confira!
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O que foram as vanguardas europeias?
As vanguardas europeias do século XX surgiram como uma reação aos moldes clássicos da arte tradicional. Esse movimento de ruptura foi fruto das profundas transformações sociais desencadeadas pela Revolução Industrial e pelo crescimento dos centros urbanos.
O impacto dessa revolução estética alcançou diversas esferas artísticas, transformando a literatura, a pintura, a música e a arquitetura.
O termo “vanguarda” vem do francês “avant-garde”, um conceito militar que designava o destacamento que marchava à frente das tropas, abrindo caminho em território inimigo.
Nessa lógica, os vanguardistas não queriam apenas criar novas técnicas, mas também propor uma nova forma de enxergar o mundo, chocar a burguesia e questionar o conceito do que era considerado “arte”.
Contexto histórico
Para compreender melhor os movimentos de vanguarda, é necessário primeiro revisar os principais eventos históricos das duas primeiras décadas do século XX:
- Segunda Revolução Industrial e a urbanização: o surgimento do automóvel, do cinema, do telégrafo e da luz elétrica mudou a percepção humana do tempo e do espaço. Tudo tornou-se mais veloz, instantâneo e conectado;
- Primeira Guerra Mundial (1914–1918): o otimismo tecnológico da Belle Époque desmoronou com o uso da própria ciência para a destruição em massa. A guerra deixou um saldo de milhões de mortos e uma profunda crise existencial, gerando ceticismo em relação aos valores racionais do Ocidente; e
- Psicanálise de Freud: o estudo do inconsciente revelou que o ser humano não era guiado apenas pela razão lógica, mas também por impulsos, sonhos e desejos ocultos, o que abriu um campo fértil para a exploração literária do fluxo de consciência.
Características gerais das vanguardas
Embora cada vanguarda defendesse uma estética própria, elas compartilhavam um núcleo de intenções que transformou a escrita literária:
- Ruptura com o passado;
- Uso de versos livres e brancos;
- Fragmentação e colagem;
- Valorização do cotidiano e do tecnológico; e
- Ilogismo e “nonsense”.
Principais movimentos de vanguarda
Para fins didáticos, as vanguardas podem ser divididas em cinco correntes principais. Cada uma delas propôs uma lente diferente para ler e traduzir o mundo moderno:
1. Futurismo
O Futurismo foi uma das primeiras vanguardas e surgiu oficialmente em 1909, com a publicação do Manifesto Futurista no Jornal Le Figaro, escrito por Filippo Tommaso Marinetti, um poeta italiano.
Marinetti era radical e propunha o rompimento completo com a arte e literatura clássicas. Nesse sentido, o movimento enaltecia a modernidade, as máquinas, as novas tecnologias e a agitação urbana. No plano político, o movimento flertou com o militarismo e o fascismo italiano.
Leia um trecho do manifesto Futurista:
“Nós destruiremos os museus, bibliotecas, academias de todo tipo, lutaremos contra o moralismo, feminismo, toda cobardice oportunista ou utilitária. Nós cantaremos as grandes multidões excitadas pelo trabalho, pelo prazer, e pelo tumulto; nós cantaremos a canção das marés de revolução, multicoloridas e polifónicas nas modernas capitais […]”
Na literatura, o futurismo pode ser dividido em duas fases: a do “verso livre” (1909 – 1913) e a da “palavras em liberdade” (1914 – 1944). Isso significa que os poemas futuristas eram desprovidos de métrica, bem como propunham o fim da sintaxe tradicional, a abolição dos adjetivos e advérbios e o uso de verbos no infinitivo para dar velocidade ao texto. Havia também a introdução de barulhos mecânicos (onomatopéias de motores e máquinas) na poesia.
Resumo das principais características do futurismo literário
- Exaltação da máquina e da tecnologia;
- Ruptura radical com o passado (rejeição a museus, bibliotecas e acervos acadêmicos);
- Inovação formal e sintática;
- Poemas visualmente dinâmicos; e
- Expressão de ruídos por onomatopéias.
Além de Marinetti, outros artistas de destaque da literatura futurista foram:
- Aldo Palazzeschi (1885 – 1974);
- Auro D’Alba (1888 – 1965);
- Corrado Govoni (1884 – 1965); e
- Francesco Cangiullo (1884 –1977)
Impacto do Futurismo no Brasil
As ideias preconizadas por esta vanguarda eram extremistas e geraram estranhamento e rejeição na sociedade, inclusive, entre os autores mais modernos da época. Devido a isso, o termo passou a ser usado de forma pejorativa no Brasil, especialmente durante a Semana de Arte Moderna de 1922, em que a imprensa referia-se aos modernistas brasileiros por “futuristas”.
2. Cubismo
Nascido nas artes plásticas com Pablo Picasso e Georges Braque, em 1907, o cubismo fazia uso de formas geométricas para montar as figuras e retratar de um mesmo objeto por vários ângulos ao mesmo tempo. Essa técnica causa uma quebra da perspectiva tradicional sem se tornar uma arte totalmente abstrata.
O cubismo foi transposto para a literatura principalmente pelas mãos de Guillaume Apollinaire, o qual aplicava a simultaneidade de temas, eliminando a ordem cronológica tradicional dos textos.
Características do cubismo literário
- Colagem de ideias;
- Simultaneidade;
- Valorização da imagem no papel;
- Ausência de sequência lógica;
- Humor e ironia;
- Linguagem direta e sem pontuação; e
- Linguagem do cotidiano.
Além de Guillaume Apollinaire, alguns dos artistas de destaque do cubismo literário foram:
- Blaise Cendrars (1887 – 1961)
- Vladimir Maiakovski (1893 – 1930)
- Oswald de Andrade (1890 – 1954)
Cubismo no Brasil
Oswald de Andrade foi o principal responsável por introduzir a estética do cubismo na literatura brasileira. Influenciado por suas viagens à Europa, ele adaptou técnicas da pintura e da poesia cubista parisiense para recriar a linguagem nacional com humor, ironia e leveza.
Esses aspectos podem ser observados no seu poema “Hípica”, em que o autor fragmenta a cena em pequenos “flashes” cotidianos, a fim de captar o ritmo da alta sociedade da época com leveza e ironia:
Hípica
Saltos records
Cavalos da Penha
Correm jóqueis de Higienópolis
Os magnatas
As meninas
E a orquestra toca
Chá
Na sala de cocktails
(Oswald de Andrade)
3. Expressionismo
Surgido na Alemanha, o Expressionismo era o oposto do Impressionismo do século XIX. Isso significa que, livre dos padrões de beleza da época, o artista expressionista projetava nas obras as suas próprias angústias, dores e visões subjetivas.
Uma das produções mais famosas do movimento é a tela “O Grito” (1893), de Edvard Munch. A obra retrata uma figura andrógina com uma fisionomia de desespero e angústia, tendo como cenário o pôr do sol na doca de Oslofjord, na Noruega.
No âmbito da literatura, este movimento assume uma postura marcadamente melancólica, dramática e obscura. Seus eixos temáticos giram em torno da denúncia social, do isolamento do indivíduo no meio urbano e do receio frente à perda de humanidade imposta pelo avanço tecnológico e pelos conflitos bélicos.
Essa corrente ganhou corpo no cenário literário com o surgimento de periódicos de destaque, a exemplo de Der Sturm (A Tempestade), sob a liderança de Herwart Walden, e de Die Aktion, publicação de viés mais político capitaneada por Frank Pfemfert.
Características da literatura expressionista
- Subjetividade extrema;
- Exploração do inconsciente;
- Uso marcante de metáforas e hipérboles;
- Enunciados objetivos e intensos para transmitir o drama psicológico; e
- Antirrealismo.
Expressionismo no cenário brasileiro
No Brasil, o Expressionismo influenciou diretamente o desenvolvimento do Modernismo, impulsionando uma profunda busca pelas raízes culturais, pela compreensão das mazelas sociais e pela dimensão subjetiva da identidade nacional.
Os reflexos dessa vanguarda europeia podem ser notados na obra “Pauliceia Desvairada”, de Mário de Andrade, em que a cidade de São Paulo deixa de ser apenas um cenário geográfico para se tornar o reflexo das angústias, ironias e contradições psicológicas do próprio poeta.
Principais artistas do Expressionismo literário:
- Franz Kafka (1883 – 1924)
- Georg Trakl (1887 – 1914)
- August Stramm (1874 – 1915)
- Georg Kaiser (1878 – 1945)
4. Dadaísmo
Fundado em Zurique em 1916 por Tristan Tzara e outros intelectuais refugiados da Primeira Guerra, o Dadaísmo foi uma das vanguardas mais radicais e niilistas.
Diante do cenário de guerra, os dadaístas argumentaram: se a razão e a lógica nos trouxeram a este massacre, então a arte deve ser completamente irracional, caótica e desprovida de nexo. O próprio nome “Dadá” não significa absolutamente nada.
Na literatura, Tzara ficou famoso por sua receita de como fazer um poema dadaísta: recortar palavras de uma matéria de jornal, sacudi-las dentro de um saco e colá-las na ordem em que fossem retiradas. Isto resume a exaltação do acaso, do deboche e do espírito de antiarte característico do movimento.
Resumo das principais características do dadaísmo literário
- Ilogicidade;
- Abolição das regras gramaticais;
- Espontaneidade e acaso;
- Deboche e antiarte; e
- Expressão do caos e da angústia pós-guerra.
Para ficar ainda mais clara a ideia do movimento, leia a receita de como escrever um poema dadaísta, segundo Tristan Tzara:
Receita de um poema dadaísta:
Pegue um jornal.
Pegue uma tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar ao seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.
5. Surrealismo
O Surrealismo surgiu oficialmente na França, em 1920, com o Manifesto Surrealista escrito por André Breton. O movimento preconizava a liberdade total e a rejeição a tudo o que pudesse reprimir os desejos humanos e sua espontaneidade.
Contudo, em vez de focar apenas na destruição da lógica como ocorria no Dadaísmo, o Surrealismo buscou enfatizar “o surreal”, localizado no inconsciente, no mundo dos sonhos e da imaginação livre, fortemente influenciada pelas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud.
No campo literário, o Surrealismo renunciou à escrita clássica e introduziu a técnica da escrita automática, em que o escritor registrava seus pensamentos sem qualquer filtro racional, moral ou estético. Nesse contexto, a metáfora surrealista une elementos absolutamente desconexos para criar imagens poéticas de um lirismo fantástico e hipnótico.
Resumo das principais características do surrealismo literário
- Foco no inconsciente e nos sonhos;
- Valorização da escrita automática;
- Associação livre de ideias;
- Criação de imagens ilógicas; e
- Antirracionalismo.
Principais escritores do surrealismo:
- André Breton (1896 – 1966)
- Paul Éluard (1895 – 1952)
- Louis Aragon (1897 – 1982)
- Jacques Prévert (1900 – 1977)
Para entender melhor os aspecto abordados, leia o trecho de um poema de André Breton:
Poema
Tenho na minha frente a fada de sal
cuja túnica recamada de cordeiros
desce até ao mar
cujo véu pregueado
de queda em queda ilumina toda a montanha.
Ela brilha ao sol como um lustro de água iridiscente
e os pequenos oleiros da noite serviram-se das suas
unhas onde a lua não se reflecte
para moldar o barro do serviço de café da beladona.
Semana de Arte Moderna de 1922
Realizada no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de 22 foi o marco inicial do Modernismo brasileiro. Nomes como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Victor Brecheret usaram a liberdade formal e o espírito de ruptura das vanguardas europeias para revolucionar a cultura do país.
No entanto, o objetivo dos modernistas não era simplesmente copiar a Europa, mas utilizar as técnicas de vanguarda como ferramentas para criar uma arte genuinamente brasileira, em uma tentativa de construir uma identidade nacional própria.
Oswald de Andrade e os manifestos
Oswald de Andrade foi o modernista que melhor traduziu a irreverência vanguardista na literatura brasileira, especialmente o humor dadaísta e a audácia futurista. Em seus dois manifestos, ele propôs caminhos para alcançar a aculturação:
- Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924): defesa de uma poesia de exportação, livre de futilidades acadêmicas, valorizando o cotidiano do povo, o linguajar coloquial e a história nacional de forma bem-humorada; e
- Manifesto Antropofágico (1928): Oswald propõe a metáfora da antropofagia, em que não deveríamos rejeitar a cultura europeia, mas sim “devorá-la”, “digeri-la” e reconstrui-la sob a forma de uma arte puramente brasileira e original.
+ Veja também: Classicismo: o que é, contexto histórico e características
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